quinta-feira, 29 de outubro de 2026

TUDO É VALOR E NÃO VALOR

 (Obs. Este artigo foi reelaborado por IA-  chatgpt - inteligência-artificial, contudo está preservado o texto original neste UT QUID)

A deterioração axiológica, a ciência jurídica e a ciência política na construção e desconstrução dos valores sociais

Autor: Milton Luiz Gazaniga de Oliveira

EMENTA

Axiologia. Ciência jurídica. Ciência política. Valores e não valores. O Direito como construção normativa derivada de fatos socialmente significativos e de escolhas valorativas positivadas pelo legislador. A distinção entre a validade jurídica e a legitimidade social. A crítica à desconstrução retórica dos valores sem a correspondente elaboração de alternativas. A dialética como instrumento de conhecimento e crítica, mas insuficiente quando se limita à exposição de contradições sem formular respostas capazes de orientar a vida social. A instabilidade axiológica como fator de fragilização da ordem jurídica e política. A contingência do Direito em relação aos valores que lhe dão fundamento social.

Palavras-chave: Axiologia; Direito; Ciência Política; valores sociais; dialética; positivismo jurídico; legitimidade; estabilidade institucional.

1. Introdução: o mundo dos valores e dos não valores

O Direito é uma ciência cujo objeto, enquanto sistema normativo, se encontra intimamente relacionado aos valores presentes na sociedade. Interessa-me, por isso, a axiologia, compreendida como o campo filosófico dedicado ao estudo, à fundamentação e à crítica dos valores. Meu interesse, entretanto, não se limita à investigação daquilo que a sociedade reconhece como valor, mas se dirige especialmente à crescente perda de valores e, sobretudo, à ausência de substituições ou reparações teóricas que possam conferir sentido às mudanças verificadas.

A questão não consiste em defender que os valores sejam imutáveis, tampouco em negar a necessidade de sua revisão histórica. Consiste em indagar o que acontece quando determinados valores são desqualificados sem que outros, dotados de consistência racional, social e institucional, sejam colocados em seu lugar.

O dinheiro, por exemplo, constitui um valor econômico que permite expressar, comparar e medir determinadas relações de troca. Não representa, evidentemente, a totalidade da riqueza humana, nem pode servir como medida universal da dignidade das pessoas. Ainda assim, sua função econômica depende de convenções, instituições e relações de confiança socialmente estabelecidas.

O mesmo raciocínio pode ser estendido ao trabalho, à família, à religião, à propriedade, ao conhecimento e ao respeito às pessoas idosas. Esses elementos não possuem necessariamente o mesmo significado para todos os indivíduos ou grupos, mas desempenham funções relevantes na organização da vida social. A crítica que lhes é dirigida pode ser legítima; o problema surge quando a crítica se converte em negação indiscriminada, sem que se apresentem critérios capazes de justificar a substituição dos valores questionados.

É nesse espaço que se estabelece a tensão entre valor e não valor. Não se trata de imaginar uma sociedade sem conflitos, nem de considerar toda transformação uma ameaça. Trata-se de compreender que a desconstrução de um valor não constitui, por si só, a construção de outro.

2. Axiologia, subjetividade e objetivação dos valores

Os valores não se apresentam à consciência humana como objetos naturais cuja existência e significado possam ser simplesmente constatados sem interpretação. São reconhecidos, disputados, hierarquizados e modificados no interior das relações sociais, políticas, econômicas e culturais.

A axiologia permite examinar precisamente essas questões: o que se considera valioso, por quais razões, segundo quais critérios e com quais consequências para a convivência humana.

Todavia, há uma diferença entre questionar os fundamentos de um valor e promover sua desqualificação sem apresentar fundamentos alternativos. No primeiro caso, a crítica pode contribuir para o aperfeiçoamento das instituições; no segundo, corre-se o risco de produzir um vazio normativo e moral, no qual prevaleçam interesses circunstanciais de indivíduos, grupos, classes ou agremiações.

A subjetividade individual e coletiva participa necessariamente da formação dos valores. O indivíduo interpreta a realidade a partir de sua experiência, de suas necessidades e de suas convicções. Os grupos, por sua vez, elaboram representações compartilhadas, estabelecem identidades e disputam o reconhecimento de suas pretensões.

Entretanto, a subjetividade não pode permanecer isolada em si mesma, nem ser substituída integralmente por uma subjetividade coletiva que se apresente como única intérprete legítima da realidade. É necessário que as diferentes experiências subjetivas possam confrontar-se, justificar suas posições e participar de um processo de objetivação: a construção de referências, critérios e instituições que ultrapassem a vontade particular de seus defensores.

Essa objetivação não significa transformar valores discutíveis em verdades eternas. Significa submetê-los a critérios públicos de justificação, coerência, experiência e responsabilidade pelas consequências.

A ciência jurídica e a ciência política encontram, nesse ponto, um campo comum de investigação. Ambas precisam examinar como as convicções particulares se convertem em regras, decisões, instituições e formas de exercício do poder, bem como os limites que devem ser impostos a esse processo, a ciência jurídica caminha num tecnicismo formal preestabelecido pelas regras já prontas, já a ciência política procura os valores contidos na sociedade para criar as normas.

3. A dialética: crítica, retórica e o problema da síntese

A dialética possui inegável importância para o pensamento crítico. Permite identificar contradições, revelar insuficiências, questionar certezas estabelecidas e compreender a realidade como processo histórico.

Contudo, formular problemas não é o mesmo que resolvê-los. E revelar uma contradição não significa, necessariamente, oferecer uma alternativa capaz de superá-la.

É possível reconhecer, em diferentes discursos políticos e ideológicos, uma valorização quase exclusiva da denúncia. Apontam-se desigualdades, exclusões, privilégios, estigmas e contradições históricas. Tais questões podem ser reais e merecer enfrentamento. O problema não está na denúncia, mas em sua transformação em finalidade suficiente do discurso.

Quando a crítica permanece no plano retórico, sem esclarecer quais instituições devem ser construídas, quais regras devem ser modificadas e quais responsabilidades devem ser assumidas, corre o risco de produzir uma sucessão indefinida de problemas. A cada síntese, apresenta-se uma nova contradição; a cada contradição, exige-se outra síntese. E assim sucessivamente: a síntese da síntese, sem que se alcance uma referência minimamente estável para orientar a ação.

Por isso, sustento que formular problemas constitui uma das maiores vantagens da dialética, pois permite desmitificar valores e revelar suas insuficiências. Entretanto, a dialética se reduz à retórica — e pode até se aproximar do sofisma — quando utiliza a crítica para desqualificar os valores existentes, mas não apresenta razões suficientes para fundamentar outros.

A crítica não precisa produzir uma solução definitiva. O conhecimento científico e a deliberação democrática não exigem o encerramento de todas as controvérsias. Exigem, porém, que as proposições sejam justificadas, que as alternativas sejam examinadas e que as consequências das escolhas sejam consideradas.

Nesse sentido, a expressão “tudo é contradição e tudo está para ser definido” torna-se problemática quando deixa de representar uma abertura ao conhecimento e passa a funcionar como justificativa permanente para a ausência de compromissos.

O futuro não pode servir indefinidamente de abrigo para a omissão no presente.

4. A crítica dos valores e os limites da amoralidade

É necessário distinguir a revisão crítica dos valores daquilo que denomino sua desconstrução arbitrária.

A crítica pode revelar que determinados valores foram utilizados para legitimar privilégios, encobrir relações de dominação ou excluir pessoas da participação social. A ciência política, a sociologia e a filosofia moral oferecem instrumentos indispensáveis para essa investigação.

Karl Marx, ao analisar as relações entre produção material, estrutura social e consciência, contribuiu para revelar como determinadas ideias podem expressar relações históricas de dominação. Max Weber, por sua vez, demonstrou a importância de compreender os sentidos atribuídos pelos indivíduos às suas ações e as relações entre valores, legitimidade e organização do poder. Hegel, ao examinar o desenvolvimento da consciência e a mediação das contradições, oferece outra referência para compreender a historicidade das formas de pensamento e das instituições.

Essas perspectivas não são equivalentes, nem conduzem necessariamente às mesmas conclusões. Sua contribuição comum para o presente debate está em demonstrar que os valores não devem ser examinados fora das condições históricas e sociais em que adquirem significado.

Todavia, reconhecer a historicidade dos valores não implica concluir que qualquer valor possa ser descartado sem consequências ou que todas as escolhas sejam igualmente justificáveis.

A denúncia de uma exclusão deve conduzir à investigação de suas causas e à formulação de alternativas. A crítica de uma instituição deve permitir examinar o que precisa ser preservado, reformado ou substituído. Caso contrário, corre-se o risco de abandonar a sociedade em um espaço de indeterminação no qual a capacidade de impor interesses passa a prevalecer sobre a capacidade de justificá-los.

É nesse sentido que emprego a expressão vácuo valorativo. Não como afirmação de que as sociedades possam existir sem quaisquer valores, mas como descrição de uma situação em que as referências anteriormente compartilhadas perdem legitimidade sem que se consolidem outras capazes de orientar a convivência.

O resultado pode ser a substituição de critérios públicos por interesses particulares, de responsabilidades por conveniências e de argumentos por discursos de autoridade.

A amoralidade, nesse contexto, não significa necessariamente a ausência absoluta de convicções morais. Significa o enfraquecimento dos critérios pelos quais as escolhas são justificadas e avaliadas, abrindo espaço para que a conveniência de determinados atores seja apresentada como se constituísse, por si só, uma razão suficiente.

5. O valor do idoso e a redução economicista da existência humana

O respeito à pessoa idosa constitui exemplo expressivo dessa problemática.

Em uma perspectiva estritamente economicista, a pessoa pode ser avaliada predominantemente pelos custos que representa, pela produtividade que oferece ou pela contribuição material que ainda pode proporcionar ao sistema. Quando essa lógica se torna dominante, a idade avançada corre o risco de ser interpretada como redução de utilidade econômica.

O problema não está em examinar a sustentabilidade financeira dos sistemas previdenciários, os custos da saúde ou a distribuição dos recursos públicos. Essas questões pertencem legitimamente aos campos da economia, da administração pública e da ciência política.

O problema surge quando a análise dos custos pretende substituir integralmente a discussão sobre dignidade, direitos, solidariedade e responsabilidade entre gerações.

Uma sociedade não pode avaliar o valor de uma pessoa exclusivamente pela sua capacidade de produzir riqueza ou de contribuir imediatamente para o orçamento estatal. A dignidade humana e a proteção jurídica não dependem de uma equivalência econômica.

O mesmo cuidado deve ser observado quando se invocam explicações históricas, materiais ou ideológicas para justificar a revisão de valores tradicionais. O fato de uma prática ter sido historicamente construída não demonstra, por si só, que deva ser preservada; tampouco demonstra que deva ser eliminada. É necessário examinar seus fundamentos, seus efeitos e sua compatibilidade com os direitos e as responsabilidades que se pretende assegurar.

A crítica ao mercado não deve transformar-se em negação de toda relevância econômica. Da mesma maneira, a crítica ao materialismo histórico não deve impedir o reconhecimento de suas contribuições para a compreensão das desigualdades e das relações de poder.

A questão central é impedir que qualquer sistema explicativo — econômico, político, histórico ou ideológico — se transforme em medida exclusiva da existência humana.

Quando a pessoa idosa passa a ser considerada apenas um peso para os cofres públicos, ocorre uma redução do problema à sua dimensão fiscal. Quando sua proteção é examinada também sob os ângulos da dignidade, da justiça intergeracional e da responsabilidade social, recupera-se a pluralidade de valores necessária à deliberação democrática.

6. A ciência política, a estabilidade social e a permanência dos valores

A experiência social permite formular a hipótese de que sociedades capazes de preservar referências éticas, morais, científicas e institucionais relativamente estáveis apresentam melhores condições para enfrentar crises e reorganizar suas instituições.

Essa afirmação, contudo, não deve ser interpretada como uma lei universal segundo a qual a estabilidade dos valores garante, necessariamente, prosperidade ou justiça. Sociedades estáveis também podem preservar discriminações, autoritarismos e privilégios. Inversamente, mudanças profundas podem ser indispensáveis para superar injustiças historicamente consolidadas.

O ponto relevante é outro: a capacidade de uma sociedade enfrentar adversidades depende, em parte, da existência de instituições confiáveis, de procedimentos reconhecidos, de compromissos públicos e de critérios minimamente compartilhados para a resolução dos conflitos.

É possível identificar essa preocupação na sociologia de Émile Durkheim, especialmente em sua análise da regulação moral e da integração social, e na obra de Max Weber, que examina as relações entre legitimidade, dominação e organização institucional.

A estabilidade, portanto, não deve ser confundida com imobilidade. Uma sociedade pode modificar suas instituições sem destruir a confiança que permite sua continuidade. Para isso, precisa distinguir aquilo que deve ser superado daquilo que constitui condição de sua própria organização.

No campo político, a sucessiva substituição de regras, acompanhada de mudanças casuísticas de interpretação e da ausência de compromissos duradouros, pode comprometer a previsibilidade das decisões e a confiança nas instituições.

No campo econômico, a falta de estabilidade institucional pode prejudicar o planejamento e a cooperação. No campo familiar e comunitário, a erosão de referências de responsabilidade pode dificultar a transmissão de experiências e o estabelecimento de compromissos. No campo científico, a substituição de critérios verificáveis por afirmações protegidas contra qualquer possibilidade de contestação compromete a produção do conhecimento.

Não se trata de defender um único modelo de sociedade, mas de reconhecer que a pluralidade exige condições para que as diferenças sejam discutidas e administradas.

A subjetividade humana deve encontrar espaço para a criatividade, a reflexão e o desenvolvimento intelectual. Ao mesmo tempo, a organização objetiva da vida social exige procedimentos, critérios e instituições capazes de transformar as diferentes vontades em decisões justificáveis.

É precisamente nessa passagem da subjetividade à objetivação que se estabelece uma das tarefas fundamentais da ciência política.

7. Hans Kelsen, a objetividade jurídica e o mundo dos valores

A teoria pura do Direito, formulada por Hans Kelsen, constitui referência indispensável para a compreensão da autonomia metodológica da ciência jurídica.

Kelsen procurou delimitar o conhecimento jurídico, distinguindo-o de outras formas de investigação, especialmente da sociologia, da política e da moral. Sua preocupação consistia em estudar o Direito como ordem normativa, evitando que a ciência jurídica confundisse a descrição da validade das normas com juízos políticos ou morais sobre sua justiça.

Em sua formulação teórica, a validade jurídica de uma norma não se confunde com sua aprovação moral. Uma norma pode ser juridicamente válida e, ainda assim, ser objeto de crítica ética, política ou social. Do mesmo modo, a justiça de determinada pretensão não basta, isoladamente, para demonstrar sua validade no interior de uma ordem jurídica positiva (KELSEN, 1998).

Essa distinção é essencial para o argumento aqui desenvolvido.

Não pretendo atribuir a Kelsen a tese de que os valores sociais constituem, necessariamente, fundamento objetivo da validade de toda norma jurídica. Sua teoria justamente separa o exame científico da validade normativa dos juízos de valor sobre a justiça. O que proponho é uma reflexão complementar sobre as condições sociais e políticas nas quais o legislador escolhe positivar determinados interesses, bens e condutas.

Antes de a norma ser editada, existem fatos, conflitos, expectativas, interesses e avaliações sociais que podem influenciar o processo legislativo. O legislador seleciona determinadas situações, atribui-lhes relevância jurídica e estabelece consequências para as condutas correspondentes.

É nesse sentido que sustento que o Direito normativo pode ser compreendido como um valor institucionalizado: um fato ou interesse socialmente significativo é selecionado e recebe tratamento jurídico, com consequências positivas ou negativas para as relações entre pessoas, grupos e instituições.

Essa afirmação não significa que todo valor social deva converter-se em lei, nem que a legislação seja a única forma de expressão dos valores. Significa que a produção normativa é uma atividade de seleção, qualificação e ordenação de comportamentos, interesses e bens juridicamente relevantes.

O Direito, assim compreendido, relaciona-se com outras áreas do conhecimento. A sociologia contribui para investigar as relações sociais; a psicologia permite examinar dimensões da conduta humana; a ética oferece instrumentos para a reflexão sobre o agir; e a ciência política investiga a distribuição do poder, a formação das decisões coletivas e a legitimidade das instituições.

Essas contribuições podem informar a atividade legislativa, sem que suas conclusões se confundam automaticamente com normas jurídicas.

A objetividade da ciência jurídica depende, portanto, da clareza de seu método e de suas categorias. A compreensão da gênese social das normas, por sua vez, exige o diálogo com os demais campos científicos.

8. A função normativa do Direito: atribuir significado e consequência aos fatos

O Direito não se limita a registrar fatos. Ele seleciona acontecimentos e condutas, atribuindo-lhes consequências segundo as regras de determinada ordem jurídica.

Um mesmo fato pode apresentar significados econômicos, morais, políticos e jurídicos distintos. O fato de uma pessoa descumprir uma obrigação, por exemplo, pode ser interpretado como quebra de confiança no plano moral, como inadimplemento no plano jurídico e como fator de risco no plano econômico.

A norma jurídica organiza essa diversidade ao estabelecer hipóteses, condições, direitos, deveres e consequências. Ao fazê-lo, converte determinada avaliação institucional em critério juridicamente relevante para a decisão de casos concretos.

A legislação não cria necessariamente o valor social que pretende proteger. Muitas vezes, reconhece práticas já existentes; em outras situações, procura modificar comportamentos, instituir novos direitos ou corrigir desigualdades.

É por isso que a relação entre fato, valor e norma merece ser compreendida sem simplificações. A lei pode expressar valores consolidados, mas também pode representar escolhas políticas contestadas ou projetos de transformação social.

O Direito, nesse sentido, não é mero espelho da sociedade. Pode conservar, modificar ou contestar as estruturas sociais existentes. Entretanto, sua capacidade de produzir efeitos duradouros depende também da qualidade das instituições, da legitimidade dos procedimentos, da efetividade das normas e da confiança pública.

A positivação de um valor não garante sua realização. Uma Constituição pode proclamar direitos, uma lei pode estabelecer deveres e uma política pública pode definir objetivos sem que, necessariamente, esses comandos se concretizem na experiência social.

A distância entre norma e realidade revela um dos limites da produção legislativa: a lei pode ordenar comportamentos, mas não elimina automaticamente as condições econômicas, culturais e políticas que dificultam sua observância.

Por isso, a ciência jurídica deve examinar a estrutura e a validade das normas, enquanto a ciência política e as demais ciências sociais podem contribuir para compreender as condições de sua criação, implementação e efetividade.

9. A instabilidade axiológica e a crise da produção legislativa

A instabilidade dos valores pode comprometer a capacidade de o Direito oferecer referências previsíveis para a convivência social.

Quando os critérios que orientam as decisões coletivas se modificam continuamente, sem justificativas suficientemente claras ou sem procedimentos confiáveis de revisão, a legislação corre o risco de tornar-se instrumento de respostas imediatas a pressões circunstanciais.

Produzem-se novas leis para enfrentar novos fatos, mas a multiplicação de normas não resolve, por si só, a ausência de critérios consistentes para a tomada de decisões.

Não se deve concluir que a estabilidade jurídica exija a imutabilidade da legislação. A sociedade se transforma, novos direitos são reconhecidos e antigas normas precisam ser revistas. O problema reside na substituição desordenada de referências e na utilização da lei como resposta meramente simbólica a conflitos que exigem soluções institucionais mais amplas.

A segurança jurídica depende não apenas da existência formal de normas, mas também de sua coerência, de sua inteligibilidade e da estabilidade dos procedimentos pelos quais são criadas, interpretadas e aplicadas.

A legitimidade democrática, por sua vez, exige que as escolhas políticas possam ser discutidas e justificadas, respeitando-se os direitos fundamentais e os limites constitucionais.

Assim, a crise axiológica não produz automaticamente a invalidade jurídica das normas. Pode, entretanto, contribuir para o enfraquecimento da confiança nas instituições, para a perda de legitimidade das decisões e para o aumento da distância entre o Direito formal e as expectativas sociais.

É nesse sentido que emprego a afirmação de que o Direito perece quando se deteriora o valor do qual derivou. Trata-se de uma proposição crítica sobre sua sustentação social e política, e não de uma regra segundo a qual a perda de apoio moral revoga automaticamente uma norma juridicamente válida.

Uma ordem jurídica pode continuar formalmente existente mesmo quando seus fundamentos são contestados. O que se compromete, nessas circunstâncias, é sua capacidade de orientar a convivência com autoridade legítima, produzir confiança e oferecer respostas reconhecidas como justificáveis.

A lei não desaparece necessariamente quando os valores se transformam. Mas sua efetividade e sua legitimidade podem ser profundamente afetadas quando a sociedade deixa de reconhecer razões para respeitá-la.

10. O efeito sombra do Direito: contingência, poder e liberdade

O valor e o não valor podem existir independentemente do Direito positivo. As pessoas atribuem significado às coisas, às relações e às experiências antes mesmo de sua regulamentação jurídica, e continuam a fazê-lo fora dos limites estabelecidos pela lei.

O Direito, contudo, não possui a mesma autonomia em relação aos valores e às avaliações humanas que lhe servem de referência histórica, política e institucional.

É nesse sentido que proponho a imagem do efeito sombra do Direito: assim como a sombra depende de uma realidade que a projeta, a ordem jurídica é contingente das condições humanas, sociais e políticas que permitem sua criação, interpretação e transformação.

A metáfora não deve ser tomada literalmente. O Direito também participa da formação dos valores, modifica expectativas, estabelece direitos e influencia comportamentos. Há, portanto, uma relação de reciprocidade: a sociedade condiciona a ordem jurídica, enquanto a ordem jurídica também contribui para transformar a sociedade.

O que pretendo destacar é que o Direito não se sustenta exclusivamente pela existência formal de seus comandos. Sua capacidade de organizar a vida coletiva depende de instituições, procedimentos, práticas e compromissos que possibilitem sua realização.

Sem essas condições, a lei pode subsistir no papel e perder parte de sua capacidade de orientar a realidade.

E o ser humano, sem uma ordem jurídica efetiva, continua sendo aquilo que é, com suas capacidades de cooperação, criação, conflito e dominação. A ausência ou a fragilidade do Direito não elimina as relações de poder; pode, ao contrário, deixar os indivíduos mais expostos à força dos sistemas econômicos, políticos, históricos e ideológicos.

O Direito não elimina a dominação por sua simples existência, assim como sua ausência não torna inevitável uma única forma de organização social. Entretanto, uma ordem jurídica efetiva, limitada por direitos fundamentais e sustentada por instituições legítimas, pode estabelecer barreiras à arbitrariedade e oferecer instrumentos para a solução pacífica dos conflitos.

A questão não é escolher entre a idealização do Direito e sua completa negação. É compreender suas condições, suas limitações e sua função na organização da liberdade humana.

11. Conclusão: tudo é valor e não valor?

A expressão “Tudo é Valor e Não Valor” não pretende afirmar que todas as coisas sejam equivalentes ou que qualquer escolha possa ser justificada indistintamente. Procura revelar a tensão permanente entre aquilo que uma sociedade reconhece como valioso, aquilo que rejeita e aquilo que ainda não conseguiu avaliar de maneira consistente.

A crítica dos valores é indispensável à transformação social. Sem ela, tradições injustas podem permanecer protegidas contra o questionamento. Contudo, a crítica também precisa ser submetida a critérios de coerência e responsabilidade. A desconstrução não representa, por si só, progresso, assim como a conservação não representa, necessariamente, estabilidade legítima.

A dialética contribui para revelar contradições, mas perde força quando se converte em discurso permanente de negação, incapaz de apresentar alternativas, admitir limites ou assumir consequências.

A ciência política deve investigar como os valores são disputados, convertidos em decisões e incorporados às instituições. A ciência jurídica, por sua vez, deve examinar a estrutura, a validade e a aplicação das normas, sem confundir a descrição do Direito vigente com a aprovação moral de seus conteúdos.

Ambas precisam reconhecer que a vida social não se organiza apenas pela edição de leis. Depende também de critérios públicos de justificação, de instituições confiáveis e da possibilidade de transformar interesses particulares em decisões compatíveis com a convivência democrática.

Não defendo a imobilidade dos valores, mas a responsabilidade em sua transformação. Não proponho o encerramento das contradições, mas a recusa de utilizá-las como justificativa para a ausência permanente de respostas. Não pretendo substituir o pluralismo por uma moral única, mas sustentar que a pluralidade necessita de critérios para que o conflito não se converta em arbitrariedade.

O valor pode sobreviver sem o Direito, porque as relações humanas produzem significados que antecedem a norma jurídica e ultrapassam seus limites. O Direito, entretanto, não pode ser compreendido sem referência ao universo de significados, interesses e escolhas humanas que o torna possível, ainda que sua validade formal obedeça a critérios próprios.

O oceano sobrevive sem a baleia; a baleia, entretanto, não vive sem o oceano. A imagem expressa a contingência de um elemento em relação ao ambiente que torna sua existência possível. De modo semelhante, os valores e os não valores podem existir sem o Direito positivo, mas o Direito não se sustenta como construção humana inteiramente isolada das condições sociais, políticas e valorativas de sua formação.

Por fim, uma sociedade que transforma toda certeza em suspeita, toda regra em obstáculo e toda contradição em resposta corre o risco de perder não apenas referências tradicionais, mas também a capacidade de construir outras.

A verdadeira questão, portanto, não é impedir que os valores mudem. É evitar que sua desconstrução se converta em finalidade autossuficiente, deixando indivíduos e instituições submetidos a interesses que já não precisam apresentar razões para se justificar.

Quando tudo pode ser negado, mas nada precisa ser fundamentado em substituição, o não valor deixa de ser apenas uma crítica ao mundo existente e passa a constituir uma nova forma de condicionamento social.

É nesse ponto que o Direito e a ciência política devem reafirmar sua tarefa crítica: investigar os fundamentos das escolhas coletivas, distinguir poder de legitimidade, norma de justiça e transformação de mera destruição, contribuindo para que a liberdade humana não seja subordinada, sem resistência, aos sistemas que ela própria construiu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica. Tradução de Fernando Pavan Baptista e Ariani Bueno Sudatti. São Paulo: EDIPRO, 2001.

DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2002.

KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Tradução de João Baptista Machado. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e introdução de Florestan Fernandes. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1999.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A FORÇA DO DIREITO: COERÇÃO, MORAL E OS LIMITES DA INTERVENÇÃO ESTATAL

 

Obs. O presente artigo foi reeditado por IA inteligência artificial O ChatGPT, cujo texto original encontra-se preservado neste UT QUID

Ementa: Direito e moral. Coerção e coação como fundamentos da efetividade jurídica. Autonomia individual e heteronomia normativa. Distinção entre licitude, honestidade e moralidade. Direito positivo, consciência individual e limites da atuação estatal no Estado Democrático de Direito. A força do Direito como potência institucional de cumprimento das normas, sujeita aos princípios da liberdade e da dignidade humana.

Palavras-chave: Direito. Moral. Coerção. Coação. Direito positivo. Liberdade individual. Estado Democrático de Direito. Justiça.

1. Introdução: os limites das palavras e a compreensão do Direito

Os termos e as palavras facilitam e, ao mesmo tempo, dificultam nossa compreensão sobre o Direito e a sociedade. Conceitos como liberdade, igualdade, justiça, equidade, valores, licitude, ilicitude, honestidade, família, comunidade, governo e leis são frequentemente utilizados como se seus significados fossem evidentes e compartilhados por todos. Entretanto, a aparente simplicidade dessas expressões esconde divergências conceituais e filosóficas que influenciam diretamente a interpretação das normas e a organização da vida social.

Entre essas distinções, destaca-se a relação entre Direito e moral, cuja proximidade histórica não elimina as diferenças de natureza, finalidade e modo de atuação de cada um.

Compreender essa relação exige examinar não apenas o conteúdo das normas, mas também os mecanismos que asseguram sua observância, os motivos que levam os indivíduos a cumpri-las e os limites que o Estado deve respeitar ao exercer seu poder.

A questão central deste artigo consiste em compreender onde reside a força do Direito: na imposição efetiva de uma consequência jurídica, na possibilidade de sua aplicação ou na aceitação espontânea das normas pelos indivíduos?

2. Direito e moral: aproximações e diferenças

Para distinguir a moral do Direito, algumas concepções tradicionais identificam a primeira com o foro interno do indivíduo, os valores pessoais e sociais e os deveres cumpridos independentemente de coação. O Direito, por sua vez, seria compreendido como um conjunto de regras de conduta social dotadas de mecanismos institucionais de exigibilidade.

Uma representação bastante conhecida dessa relação utiliza dois círculos concêntricos, sendo o maior correspondente à moral e o menor ao Direito. Essa imagem procura demonstrar que a moral abrangeria um campo mais amplo de comportamentos, alcançando deveres e valores que não necessariamente são exigidos pelo ordenamento jurídico.

Embora didática, essa representação não deve ser tomada como verdade universal. A relação entre Direito e moral varia conforme a concepção filosófica adotada, o sistema jurídico e o contexto histórico. Há deveres morais sem correspondência jurídica, assim como existem obrigações legais cuja fundamentação moral pode ser objeto de controvérsia.

O Direito não se confunde com a moral, embora possa receber dela valores, princípios e critérios de interpretação. Da mesma forma, a moral não depende necessariamente da existência de uma norma jurídica para orientar a conduta humana.

A distinção pode ser apresentada, de maneira simplificada, nos seguintes termos: a moral está associada à avaliação dos motivos, das intenções e dos valores que orientam o agir individual; o Direito ocupa-se da regulação das relações intersubjetivas e da conformidade das condutas com as normas juridicamente estabelecidas.

Essa separação, contudo, não significa que o Direito ignore os aspectos subjetivos da ação humana. Dolo, culpa, boa-fé, intenção e determinados motivos juridicamente relevantes podem integrar a análise de uma conduta, influenciando a configuração da responsabilidade e as consequências previstas em lei.

Portanto, não basta afirmar que a moral pertence exclusivamente ao indivíduo e que o Direito se limita aos atos exteriores. Ambos podem considerar elementos subjetivos, mas o fazem segundo critérios, finalidades e métodos distintos.

3. A coerção como potência e a coação como força efetiva

A compreensão da força do Direito exige atenção especial aos conceitos de coerção e coação.

Na tradição da filosofia jurídica, Rudolf von Ihering atribuiu importância fundamental à força na compreensão do Direito, destacando a relação entre a norma jurídica e os mecanismos capazes de assegurar sua realização. Em sua obra A luta pelo direito, o autor apresenta a defesa do Direito como uma exigência que ultrapassa a mera contemplação abstrata da norma.

A partir dessa perspectiva, proponho distinguir a coerção da coação por meio de uma imagem conceitual: a coerção representa a força em potência, enquanto a coação corresponde à força efetivamente empregada.

A coerção pode ser compreendida como a possibilidade institucional de aplicação de uma consequência jurídica diante do descumprimento da norma. Trata-se de uma força latente, que não precisa se manifestar concretamente para produzir efeitos sobre o comportamento dos indivíduos.

A coação, nessa construção, representa o emprego efetivo dos meios juridicamente autorizados para impor o cumprimento de uma obrigação ou executar uma consequência prevista no ordenamento.

Essa distinção ajuda a explicar por que tantas normas são observadas sem que o Estado precise recorrer continuamente à força. O indivíduo pode cumprir espontaneamente uma obrigação por reconhecer sua legitimidade, por convicção moral, por solidariedade, por conveniência ou simplesmente por considerar adequada a conduta exigida.

Ainda assim, a possibilidade de uma consequência jurídica em caso de descumprimento contribui para a efetividade do ordenamento.

A força do Direito, portanto, não se revela apenas no momento em que a sanção é aplicada. Ela também está presente na possibilidade juridicamente organizada de sua aplicação.

Convém observar que os termos coerção e coação podem ser empregados de maneira diferente conforme a corrente doutrinária e o contexto jurídico. A distinção aqui apresentada constitui uma opção conceitual para desenvolver o argumento, e não uma classificação terminológica universalmente aceita.

4. Cumprimento espontâneo, consciência e responsabilidade

Se a força do Direito estivesse exclusivamente na aplicação material da sanção, a vida social dependeria de uma vigilância permanente e de uma intervenção estatal contínua.

Essa hipótese, além de impraticável, seria incompatível com uma sociedade que reconhece a autonomia individual e valoriza a participação consciente dos cidadãos.

O cumprimento espontâneo das normas demonstra que a conduta humana não é determinada apenas pelo receio da punição. Valores culturais, convicções morais, confiança nas instituições, expectativas sociais e reconhecimento da legitimidade das regras também influenciam o comportamento.

É nesse ponto que Direito e moral podem se aproximar sem perder suas características próprias.

A moral pode favorecer o cumprimento de obrigações jurídicas, assim como princípios morais incorporados ao ordenamento podem orientar a interpretação e a aplicação das normas. Entretanto, a observância jurídica de uma regra não prova, por si só, a virtude moral de quem a cumpre.

Um indivíduo pode agir de acordo com a lei por medo da sanção, por interesse pessoal ou por convicção ética. O resultado exterior pode ser semelhante, embora os motivos sejam diferentes.

Daí decorre uma das ideias centrais deste trabalho: um homem pode cumprir todos os deveres jurídicos que lhe são exigíveis e, ainda assim, falhar moralmente.

A moral contempla dimensões da vida humana que não podem ser integralmente submetidas à fiscalização estatal. A generosidade, a lealdade, a solidariedade e o respeito espontâneo ao próximo não se esgotam naquilo que a lei pode exigir.

Por isso, nem tudo quanto é lícito é necessariamente honesto ou moral. A licitude exprime a conformidade de uma conduta com o Direito aplicável; a honestidade e a moralidade envolvem avaliações que podem ultrapassar os limites da legalidade.

Essa constatação não diminui a importância do Direito. Apenas reconhece que a norma jurídica não substitui a consciência individual nem esgota os critérios pelos quais avaliamos a dignidade de uma conduta.

5. O justum e o honestum: justiça e honestidade

A tradição filosófica e jurídica frequentemente procura distinguir o que é juridicamente justo daquilo que é moralmente honesto. As expressões latinas justum e honestum podem servir como referências didáticas para essa reflexão, desde que não sejam tomadas como uma divisão rígida e universal entre Direito e moral.

O Direito preocupa-se com a juridicidade das condutas, a proteção de direitos, a distribuição de responsabilidades e a solução institucional dos conflitos. A moral, por sua vez, pode avaliar os motivos, as virtudes, os propósitos e a coerência da ação com determinados valores.

Essa distinção permite compreender por que a validade jurídica de um ato não resolve, necessariamente, todas as questões relativas à sua legitimidade ética ou à sua justiça material.

Uma decisão pode estar formalmente amparada em uma norma e, ainda assim, provocar controvérsias quanto à sua equidade, às consequências sociais ou à compatibilidade com valores fundamentais. Isso não significa que qualquer juízo moral individual possa afastar automaticamente a aplicação da lei, mas que a reflexão jurídica não deve ignorar os princípios que orientam a interpretação do ordenamento.

Nos Estados constitucionais contemporâneos, essa aproximação aparece, entre outros aspectos, na proteção da dignidade da pessoa humana, na igualdade, na proporcionalidade, na boa-fé e no acesso à justiça, observados os respectivos fundamentos e requisitos jurídicos.

A moral e o Direito, assim, podem estar entrelaçados quando os motivos e os valores considerados relevantes para a vida social passam a integrar a elaboração ou a interpretação das normas. Essa aproximação, contudo, não elimina a necessidade de distinguir os deveres juridicamente exigíveis das exigências pertencentes ao campo da consciência.

6. O Direito positivo e os limites da intervenção estatal

O Direito, especialmente nos sistemas que atribuem centralidade ao Direito positivo, preocupa-se com a conformidade das condutas humanas às normas reconhecidas pelo ordenamento jurídico.

Essa característica é essencial à segurança jurídica. As pessoas precisam conhecer as regras aplicáveis, prever as consequências de suas ações e dispor de instrumentos institucionais para defender seus direitos.

Entretanto, a existência de normas jurídicas não autoriza o Estado a regular ilimitadamente a consciência individual.

Em uma formulação simplificada, pode-se dizer que o Direito possui uma dimensão pública e institucional, enquanto a moral também compreende uma esfera privada de reflexão e autodeterminação. Essa distinção não é absoluta, pois o Direito regula relações privadas e pode proteger valores morais socialmente relevantes. O problema surge quando a intervenção estatal ultrapassa os limites constitucionalmente legítimos e pretende impor, por meio da força, uma concepção abrangente de vida moral.

Quando o Estado busca controlar intensamente pensamentos, convicções e escolhas pessoais que não lesam direitos alheios nem justificam juridicamente sua intervenção, abre-se espaço para o autoritarismo, a tirania ou o despotismo.

A existência de leis, por si só, não garante a liberdade. Um regime pode utilizar instrumentos jurídicos para restringir direitos e perpetuar relações de poder. Por isso, a legalidade precisa ser compreendida no contexto do Estado Democrático de Direito, que submete o exercício do poder a limites constitucionais e à proteção dos direitos fundamentais.

A força do Direito não pode ser confundida com a força ilimitada do Estado. A coação juridicamente legítima depende de competência, fundamento normativo, procedimento adequado e respeito aos direitos assegurados pelo ordenamento.

Quanto mais uma sociedade desenvolve a responsabilidade individual, o respeito recíproco e a capacidade de resolver conflitos sem violência, menor tende a ser a necessidade de recorrer à imposição direta. Isso não elimina a função coercitiva do Direito, mas evidencia que sua efetividade também depende da confiança nas instituições e da adesão social às normas.

A moral, nesse sentido, pode constituir uma das fontes de inspiração do Direito, sem que toda convicção moral deva ser transformada em obrigação legal.

7. A consciência individual e o pensamento de Rui Barbosa

A reflexão sobre os limites da atuação estatal conduz a uma referência atribuída a Rui Barbosa, apresentada neste texto nos seguintes termos:

“Nenhuma lei pode ultrapassar a consciência e a pele do indivíduo.”

A frase é associada à ideia de que a consciência representa a região moral do pensamento, enquanto a pele simboliza os limites fisiológicos do organismo. Ambas constituiriam o “domínio impenetrável da nossa personalidade”.

A imagem é expressiva porque reúne, em uma única formulação, duas dimensões fundamentais da liberdade: a interioridade da consciência e a integridade física da pessoa.

A primeira remete à autonomia de pensamento, às convicções e à formação dos juízos individuais. A segunda diz respeito à proteção do corpo contra intervenções arbitrárias. Em conjunto, essas dimensões sugerem que o poder estatal não pode tratar a pessoa humana como objeto de domínio ilimitado.

É necessário, entretanto, fazer uma ressalva quanto à fonte. Como não disponho, neste trabalho, da identificação segura do discurso, da data, do pronunciamento e da página em que a frase teria sido proferida por Rui Barbosa, a atribuição deve ser conferida em fonte primária antes de sua publicação acadêmica. A passagem é aqui utilizada como formulação atribuída ao autor, e não como transcrição documental definitivamente autenticada.

Sob o ponto de vista constitucional, a ideia encontra correspondência na proteção da liberdade de consciência e de crença, prevista no artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal de 1988, bem como na inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem, prevista no inciso X do mesmo artigo.

Essas garantias não significam que a consciência individual esteja dispensada de toda limitação jurídica, nem que a integridade física seja absolutamente imune a qualquer intervenção legal. Significam, antes, que as restrições devem possuir fundamento legítimo e respeitar os limites constitucionais.

A liberdade individual não elimina a responsabilidade perante os demais; impede, contudo, que a autoridade pública transforme sua força em instrumento de submissão indiscriminada.

8. Considerações finais: onde reside a força do Direito?

Concluo que a força do Direito reside, em primeiro lugar, na coerção compreendida como potência institucional: a possibilidade de que o descumprimento de uma norma produza consequências juridicamente previstas. Quando necessário e legalmente autorizado, essa potência pode converter-se em coação efetiva.

Todavia, a efetividade jurídica não depende exclusivamente da aplicação de sanções. O cumprimento espontâneo das normas, a confiança nas instituições, a educação, a responsabilidade e o reconhecimento social da legitimidade das regras também desempenham papel relevante.

É preciso reconhecer, igualmente, que, no Estado Democrático de Direito, nem toda norma jurídica contém, necessariamente, moralidade, justiça, equidade, honestidade ou todos os valores que consideramos desejáveis. A validade jurídica e a avaliação ética não são conceitos idênticos, embora possam se relacionar de maneira profunda.

Essa distinção não autoriza a desobediência indiscriminada às normas, tampouco permite que a moral individual seja utilizada para afastar arbitrariamente o Direito. Ela nos convida, antes, a compreender que a ordem jurídica possui limites e que a legitimidade do poder exige respeito à liberdade, à dignidade humana e às garantias constitucionais.

A moral pode orientar o Direito, inspirar sua criação e contribuir para sua interpretação. O Direito, por sua vez, estabelece padrões públicos de conduta e mecanismos de proteção contra violações. Nenhum dos dois, isoladamente, resolve todas as questões relativas à vida em sociedade.

A força do Direito não deve ser medida apenas pela capacidade de punir, mas também pela capacidade de organizar a convivência sem transformar a liberdade em submissão. Um Estado que necessita vigiar e coagir permanentemente seus cidadãos revela os limites de sua capacidade de construir legitimidade. Um Estado democrático, ao contrário, deve assegurar que a força institucional permaneça subordinada à Constituição.

Em síntese, a coerção dá ao Direito a possibilidade de exigir o cumprimento das normas; a coação pode tornar efetiva essa exigência; e a moral recorda que a vida humana contém deveres, valores e responsabilidades que ultrapassam aquilo que a lei consegue impor.

A força legítima do Direito não está na invasão ilimitada da consciência, mas na capacidade de estabelecer uma ordem jurídica efetiva sem destruir a autonomia que deve proteger.


Referências bibliográficas

BARBOSA, Rui. [Pronunciamento parlamentar a identificar: referência à consciência individual e aos limites da lei]. A identificação do discurso, da data e da página deve ser confirmada em fonte primária antes da publicação.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 28 out. 2026.

IHERING, Rudolf von. A luta pelo direito. Obra originalmente publicada em 1872. Para a referência bibliográfica definitiva, indicar a edição, o tradutor, a cidade e a editora da versão efetivamente consultada.

KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Para a referência bibliográfica definitiva, indicar a edição, o tradutor, a cidade e a editora da versão efetivamente consultada.

Textos complementares do autor

OLIVEIRA, Milton Luiz Gazaniga de. A justiça, o sistema civil law e common law. Ut Quid, jan. 2016. Disponível em: http://utquid.blogspot.com.br/2016/01/a-justica-o-sistema-civil-law-e-common.html. Acesso em: 28 out. 2026.

OLIVEIRA, Milton Luiz Gazaniga de. Tudo é valor e não valor. Ut Quid, fev. 2016. Disponível em: http://utquid.blogspot.com.br/2016/02/tudo-e-valor-e-nao-valor.html. Acesso em: 28 out. 2026.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O FUTURO DO DIREITO E O FIM DA MORAL: UTOPIA E CONTRADIÇÃO

 Obs. Este artigo foi reeditado por IA - inteligência artificial, a partir do texto original preservado neste UT QUID

Ementa: Filosofia do Direito. Direito normativo e projeção do futuro. Moralidade, liberdade e regulação das condutas humanas. A utopia como modelo de organização social orientado pela razão, pela educação, pela virtude e pela qualidade das políticas públicas. A contradição entre o desenvolvimento moral da sociedade e a proliferação legislativa. O Geo Posicionamento Jurídico (GPJ) como alegoria do controle estatal permanente. A hipertrofia normativa como possível expressão do enfraquecimento da autonomia moral e da liberdade individual. Reflexões sobre os limites da coerção jurídica e a construção de uma sociedade democrática.

Palavras-chave: Filosofia do Direito; Direito e Moral; Utopia; Liberdade; Hiper-regulação; Políticas Públicas; Democracia; Autonomia moral.

1. Introdução

O Direito, especialmente em sua dimensão normativa, apresenta uma orientação predominantemente prospectiva: estabelece regras destinadas a disciplinar condutas, prevenir conflitos, atribuir consequências jurídicas a determinados fatos e orientar o comportamento social. A norma jurídica, em regra, projeta-se sobre situações futuras, embora o ordenamento também discipline fatos passados, reconheça situações já constituídas e admita, em hipóteses específicas, efeitos retroativos.

Essa característica permite formular uma indagação: até que ponto o Direito, ao pretender organizar o futuro, consegue compreender e transformar o presente?

A questão conduz a outra, de maior profundidade filosófica: uma sociedade que multiplica continuamente suas leis e mecanismos de controle demonstra maior evolução institucional ou revela dificuldades para cultivar os valores morais necessários à convivência coletiva?

É a partir dessas indagações que se desenvolve o presente ensaio, mediante a construção de duas realidades imaginárias e antagônicas: a Ilha da Utopia e o país de Marlboro. A primeira representa uma sociedade que, apoiada na educação, na participação democrática, na boa administração pública e no desenvolvimento das virtudes humanas, reduz progressivamente sua dependência de comandos jurídicos coercitivos. O segundo simboliza uma organização social em que a proliferação de leis, códigos, tribunais e prisões se torna inversamente proporcional à qualidade das políticas públicas e à autonomia moral dos cidadãos.

A contradição entre esses dois modelos permite discutir o futuro do Direito, os limites da regulação estatal e a possibilidade de uma sociedade na qual a moralidade não seja substituída pela vigilância permanente.

2. O Direito normativo e a projeção do futuro

O Direito não se limita a descrever a realidade. Sua dimensão normativa procura influenciar comportamentos, estabelecer deveres, proteger direitos e organizar as relações sociais. A norma jurídica, nesse sentido, constitui um instrumento de orientação da conduta e de prevenção de conflitos.

Entretanto, a produção legislativa não deve ser confundida com a efetiva transformação da sociedade. A edição de uma nova lei pode representar uma resposta necessária a determinado problema, mas também pode constituir uma reação superficial a dificuldades cujas causas se encontram na educação, na desigualdade, na deficiência administrativa ou na ausência de políticas públicas adequadas.

A questão não está, portanto, em rejeitar a lei, mas em compreender seus limites.

O Direito é indispensável à organização democrática, à proteção das liberdades e à contenção do arbítrio. Todavia, sua capacidade de ordenar a sociedade não é ilimitada. A norma pode exigir uma conduta exterior, prever sanções e estabelecer responsabilidades, mas não consegue, por si só, produzir convicções morais autênticas.

Nesse ponto, torna-se pertinente a distinção entre legalidade e moralidade. Uma conduta pode ser juridicamente obrigatória sem decorrer de uma convicção moral do agente; da mesma forma, uma ação pode ser moralmente valiosa sem depender de imposição estatal.

O desafio de uma ordem jurídica democrática consiste em assegurar o cumprimento das normas legítimas sem transformar todos os aspectos da existência humana em objetos de fiscalização e coerção.

3. A Ilha da Utopia: a sociedade que aprende a necessitar de menos coerção

Imaginemos a Ilha da Utopia, inspirada livremente na tradição inaugurada por Thomas More.

Seus primeiros habitantes eram imigrantes e desbravadores provenientes de uma terra natal cuja organização social havia entrado em profundo processo de deterioração. Embora muitos daqueles que partiram fossem pessoas dotadas de capacidade, experiência e discernimento, a sociedade de origem já não correspondia aos seus anseios mínimos de convivência.

A moralidade pública encontrava-se enfraquecida, os costumes perdiam sua função integradora, a educação não conseguia cumprir adequadamente seu papel e a ciência deixava de receber o tratamento necessário ao desenvolvimento coletivo. A má qualidade das políticas públicas, somada à fragilidade ética de setores da sociedade e dos poderes estatais, comprometera a confiança nas instituições.

Ao chegarem à nova terra, os desbravadores trouxeram consigo os hábitos e as referências jurídicas de sua origem. Por precaução, instituíram incontáveis códigos, criaram tribunais e construíram prisões. Pretendiam evitar que os erros do passado se reproduzissem no novo território.

A princípio, a Ilha da Utopia parecia destinada a reproduzir a mesma cultura de controle que seus habitantes haviam deixado para trás.

Entretanto, ocorreu uma transformação decisiva. Os novos habitantes compreenderam que a reconstrução social não poderia depender exclusivamente de proibições, sanções e comandos. Decidiram, por vontade majoritária e mediante diferentes mecanismos de participação democrática, privilegiar políticas públicas orientadas pela educação, pela cultura, pela ciência, pela prevenção dos conflitos e pela valorização da dignidade humana.

As decisões coletivas passaram a considerar a participação direta, a deliberação pública e a representação política, conforme a natureza de cada questão. A administração pública deixou de ser concebida apenas como aparelho de imposição de obrigações e passou a funcionar como instrumento de realização do interesse coletivo.

As relações entre os habitantes foram progressivamente orientadas pela razão, pela responsabilidade, pela confiança e pelo respeito às consequências naturais e sociais das ações humanas.

Nesse ambiente, a educação não se limitava à transmissão de conhecimentos. Contribuía para a formação do juízo crítico, para a compreensão dos deveres coletivos e para o desenvolvimento da autonomia moral.

A sociedade começou, então, a experimentar uma transformação surpreendente: quanto mais se aperfeiçoavam suas instituições e seus cidadãos, menos necessário se tornava recorrer a determinados mecanismos de coerção.

Os antigos códigos, antes considerados indispensáveis à manutenção da ordem, passaram a cair em desuso, na medida em que as situações por eles disciplinadas deixavam de constituir problemas relevantes ou encontravam soluções mais adequadas. Alguns edifícios que haviam abrigado prisões e antigas cortes foram convertidos em espaços de educação, pesquisa e cultura.

Não se tratava do desaparecimento do Direito, mas de sua transformação funcional.

A lei permanecia necessária para proteger direitos, solucionar conflitos e conter abusos. O que diminuía era a dependência de uma normatividade excessiva, destinada a suprir, mediante ameaças e sanções, deficiências que poderiam ser enfrentadas por políticas públicas, instituições confiáveis e formação moral.

Na Ilha da Utopia, o Direito deixava de ocupar todos os espaços da vida social porque a sociedade aprendia a resolver, de maneira responsável, uma parcela crescente de seus próprios problemas.

4. Marlboro: o país das leis incontáveis e das liberdades tuteladas

Em contraposição à Ilha da Utopia, imaginemos Marlboro, o país dos “contáveis homens livres, de livre-arbítrio sobre a coisa pública, e incontáveis tutelados”.

Nesse território, a produção de normas não conhecia descanso. Todos os dias surgiam novas leis, regulamentos, códigos e procedimentos destinados a disciplinar as condutas individuais e coletivas.

Diante de cada dificuldade, a resposta institucional parecia ser a mesma: criar outra obrigação, instituir nova proibição, estabelecer uma sanção adicional ou ampliar os mecanismos de fiscalização.

A multiplicação normativa era apresentada como sinal de modernização e eficiência. Contudo, a realidade demonstrava uma contradição: quanto maior o número de regras, maior parecia a necessidade de novas regras para assegurar o cumprimento das anteriores.

As políticas públicas, por sua vez, não acompanhavam a expansão do aparato jurídico. Faltavam investimentos proporcionais em educação, prevenção, cultura, ciência e serviços públicos. O Estado ampliava sua capacidade de prescrever comportamentos sem desenvolver, na mesma medida, sua capacidade de oferecer condições para que os cidadãos agissem com autonomia e responsabilidade.

Foi nesse contexto que se concebeu um dispositivo fictício denominado Geo Posicionamento Jurídico (GPJ), semelhante a um sistema de navegação por satélite.

O aparelho resultava de um empreendimento interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar, reunindo conhecimentos jurídicos, tecnológicos e científicos. Sua concepção também evocava, por analogia, o Panóptico de Jeremy Bentham, modelo arquitetônico de vigilância que permite pensar as relações entre observação, disciplina e poder.

No país de Marlboro, porém, a vigilância ultrapassava os limites físicos de uma prisão.

Ao sair de casa, cada cidadão deveria portar obrigatoriamente o GPJ, sob pena de multa. A cada deslocamento, intervalo de tempo ou distância percorrida, a tela do dispositivo indicaria a situação jurídica correspondente àquele lugar e momento, apontando obrigações a cumprir e consequências previstas para eventual descumprimento.

O cidadão passava a ser acompanhado por uma espécie de mapa normativo permanente. Cada movimento poderia desencadear uma advertência, uma obrigação ou uma imputação jurídica.

O Direito, concebido originalmente como instrumento de organização da liberdade e proteção da convivência, convertia-se em uma estrutura de tutela contínua.

A liberdade formalmente reconhecida coexistia com a submissão prática a uma rede quase ilimitada de comandos. O indivíduo permanecia livre em tese, mas precisava consultar permanentemente o Estado para saber o que podia ou não fazer.

A metáfora do GPJ evidencia, assim, uma contradição fundamental: quando a legalidade pretende antecipar e disciplinar todos os comportamentos, corre o risco de transformar a vida social em uma sucessão interminável de autorizações, proibições e ameaças de sanção.

Em Marlboro, as leis, os códigos, os tribunais e as prisões tornavam-se incontáveis, enquanto os investimentos e os resultados das políticas públicas permaneciam insuficientes quando comparados aos da Ilha da Utopia.

O crescimento do aparato coercitivo não produzia, necessariamente, uma sociedade mais justa, segura ou virtuosa. Produzia, antes, uma sociedade cada vez mais dependente da fiscalização estatal.

5. A contradição: quando o Direito ocupa o lugar da moral

A comparação entre os dois territórios permite formular a tese central deste artigo: a expansão ilimitada da regulação jurídica pode constituir um indício de insuficiência moral e institucional, em vez de representar, por si só, o progresso da sociedade.

Essa afirmação exige uma ressalva. Nem toda ampliação legislativa é negativa. Novas leis podem ser necessárias para enfrentar formas de violência, proteger grupos vulneráveis, corrigir desigualdades, disciplinar tecnologias emergentes e assegurar direitos fundamentais. A ausência de normas também pode favorecer o arbítrio e a exploração.

O problema surge quando a produção normativa se converte em resposta automática a todo conflito, independentemente da investigação de suas causas e da avaliação da eficácia das medidas adotadas.

Nesse cenário, a norma deixa de ser um instrumento seletivo de proteção de bens jurídicos e passa a funcionar como substituto de políticas públicas consistentes, de instituições responsáveis e de uma cultura de respeito recíproco.

A moral, diferentemente do Direito estatal, envolve a reflexão sobre valores, deveres, responsabilidades e razões para agir. Não se reduz à obediência motivada pelo medo da punição.

Immanuel Kant, ao distinguir a moralidade da mera conformidade exterior ao dever, oferece uma referência importante para compreender essa diferença. Uma ação praticada exclusivamente para evitar uma sanção não possui, por esse único motivo, o mesmo significado moral de uma ação realizada por reconhecimento racional do dever.

A contribuição kantiana não implica que o Direito deva depender da virtude íntima de cada cidadão. O ordenamento jurídico precisa disciplinar relações externas entre pessoas que possuem convicções distintas. Sua legitimidade, contudo, não autoriza o Estado a confundir obediência com formação moral.

Quando a sociedade passa a depender de uma regra para cada gesto, a pergunta deixa de ser apenas se determinada conduta é permitida ou proibida. Torna-se necessário perguntar por que os cidadãos perderam, ou foram impedidos de desenvolver, a capacidade de orientar suas ações sem fiscalização permanente.

A hipertrofia normativa pode, nesse sentido, revelar uma inversão de prioridades: em vez de enfrentar as causas sociais e institucionais dos problemas, o poder público multiplica as consequências jurídicas atribuídas aos comportamentos.

O resultado é uma espécie de círculo vicioso. A insuficiência das políticas públicas alimenta conflitos; os conflitos justificam novas normas; a multiplicação de normas aumenta a complexidade do sistema; e a complexidade amplia a dependência de especialistas, procedimentos e mecanismos de controle.

O Direito passa a administrar continuamente os efeitos de problemas que não consegue prevenir ou resolver em suas origens.

6. O GPJ e a sociedade da vigilância

O GPJ, enquanto construção alegórica, permite aprofundar a reflexão sobre a relação entre tecnologia, Direito e liberdade.

A ideia de um dispositivo capaz de informar ao cidadão, a cada passo, suas obrigações jurídicas representa o limite extremo de uma sociedade que pretende converter a totalidade da vida humana em objeto de regulação.

A analogia com o Panóptico de Jeremy Bentham é especialmente relevante porque desloca a discussão da mera existência de uma estrutura física de vigilância para o problema mais amplo da observação permanente e de seus efeitos sobre o comportamento.

Em uma sociedade submetida a um controle contínuo, a pessoa pode passar a orientar suas ações não pela convicção sobre o que é justo, prudente ou responsável, mas pelo receio de ser observada e punida.

A vigilância deixa de ser apenas um recurso excepcional de proteção e passa a integrar a própria experiência cotidiana da liberdade.

A reflexão de Michel Foucault sobre a disciplina e os mecanismos de poder também contribui para essa análise. Em Vigiar e punir, o autor examina como práticas institucionais de observação, classificação e correção participam da formação de comportamentos e sujeitos disciplinados.

Aplicada à metáfora de Marlboro, essa perspectiva permite perceber que o controle jurídico não se manifesta apenas na existência de sanções. Ele pode estruturar o ambiente no qual as pessoas tomam decisões, restringindo suas possibilidades práticas e incentivando a conformidade permanente.

Isso não significa que toda tecnologia de monitoramento seja ilegítima ou que toda fiscalização estatal deva ser rejeitada. O controle público pode ser necessário para proteger direitos, prevenir danos e assegurar o cumprimento de obrigações legalmente estabelecidas.

A questão decisiva está nos limites: finalidade legítima, necessidade, proporcionalidade, transparência, proteção de dados, possibilidade de contestação e controle democrático.

O GPJ de Marlboro viola esses limites justamente porque transforma a vigilância em condição geral da existência. A tecnologia, em vez de ampliar as capacidades humanas, converte-se em instrumento de tutela.

Nesse ponto, a contradição entre os dois modelos torna-se evidente. Na Ilha da Utopia, o conhecimento e a tecnologia fortalecem a autonomia dos cidadãos; em Marlboro, a inovação serve para tornar mais abrangente a submissão a comandos estatais.

7. Políticas públicas, democracia e formação da autonomia

A oposição entre Utopia e Marlboro não se resume à quantidade de leis. Seu fundamento está na maneira como cada sociedade compreende a função do Estado.

Na Ilha da Utopia, a ação estatal prioriza a prevenção dos conflitos e a criação de condições para o desenvolvimento humano. A educação, a cultura, a ciência e a participação democrática são tratadas como instrumentos de transformação social.

Em Marlboro, prevalece a confiança excessiva na capacidade da norma de corrigir comportamentos, enquanto as políticas públicas permanecem secundárias.

Essa diferença conduz a uma conclusão importante: a qualidade da ordem jurídica depende também da qualidade das instituições que a produzem e das condições sociais que permitem sua aplicação legítima.

A democracia não se esgota na aprovação formal de leis. Exige participação, deliberação, transparência, responsabilização dos agentes públicos e condições efetivas para que os cidadãos influenciem as decisões coletivas.

A participação democrática, seja direta, deliberativa ou representativa, deve contribuir para que os problemas sejam identificados em suas causas, as alternativas sejam avaliadas e os resultados das políticas públicas sejam submetidos ao escrutínio social.

A produção legislativa deixa, então, de ser medida exclusivamente pelo número de normas editadas e passa a ser avaliada por sua necessidade, coerência, legitimidade e capacidade de produzir resultados compatíveis com os direitos fundamentais.

Uma sociedade democrática não deve pretender eliminar o Direito, mas impedir que ele se converta em finalidade autônoma, desvinculada das necessidades humanas que justificam sua existência.

O Estado de Direito não é aquele que simplesmente produz mais normas, mas aquele que se submete à Constituição, respeita os direitos fundamentais, limita o exercício do poder e oferece instrumentos efetivos para a solução justa dos conflitos.

A Ilha da Utopia representa, portanto, não uma sociedade sem instituições jurídicas, mas uma comunidade na qual o Direito, a moral, a educação e as políticas públicas mantêm relações de complementaridade, sem que a coerção estatal ocupe todos os espaços da vida social.

8. O futuro do Direito e a possibilidade de uma sociedade menos prescritiva

A pergunta que dá título a este artigo contém duas ideias que precisam ser examinadas conjuntamente: o futuro do Direito e o fim da moral.

O fim da moral pode ser compreendido, neste ensaio, não como uma previsão inevitável, mas como uma hipótese crítica: o risco de que a autonomia moral seja progressivamente substituída pela obediência externa, pela fiscalização e pelo medo da sanção.

Se toda conduta depender de uma determinação estatal minuciosa, a moralidade poderá perder espaço como dimensão autônoma da experiência humana. A pessoa deixará de perguntar se uma ação é justa ou responsável e passará a perguntar, prioritariamente, se ela está juridicamente autorizada.

Nesse contexto, o futuro do Direito não deveria ser medido pela extensão de seu alcance, mas pela capacidade de estabelecer limites legítimos ao poder, proteger a liberdade e contribuir para uma convivência social responsável.

Uma ordem jurídica madura precisa saber quando intervir e quando reconhecer espaços de autonomia. Deve distinguir os comportamentos que exigem disciplina jurídica daqueles que podem ser orientados pela educação, pela consciência, pela responsabilidade individual e pelos mecanismos espontâneos de cooperação social.

A redução de normas desnecessárias, a avaliação dos efeitos da legislação, a simplificação administrativa e o investimento em políticas públicas podem contribuir para diminuir a dependência excessiva da coerção.

Isso não pressupõe a eliminação dos tribunais, das sanções ou das prisões, cuja existência pode ser indispensável à proteção dos direitos. Pressupõe, antes, que esses instrumentos sejam utilizados de maneira necessária, proporcional e compatível com a dignidade humana.

A utopia, nesse sentido, não deve ser entendida como um destino perfeito e definitivamente alcançado. Constitui um horizonte crítico que permite avaliar a distância entre a sociedade existente e aquela que se pretende construir.

O seu valor reside justamente em questionar a naturalização de instituições, práticas e mecanismos de controle que, embora historicamente construídos, não são imunes à crítica e à transformação.

9. Conclusão

A história da contradição entre a Ilha da Utopia e o país de Marlboro permite refletir sobre dois caminhos possíveis para o desenvolvimento do Direito.

No primeiro, a sociedade investe na educação, na cultura, na ciência, na participação democrática e na qualidade das políticas públicas. O fortalecimento da autonomia moral e das instituições contribui para reduzir a necessidade de determinados mecanismos coercitivos, sem eliminar a função protetiva do ordenamento jurídico.

No segundo, a insuficiência das políticas públicas e a fragilidade da confiança institucional são enfrentadas, predominantemente, pela multiplicação de leis, códigos, sanções e instrumentos de vigilância. A liberdade permanece formalmente reconhecida, mas seu exercício concreto passa a depender de uma sucessão interminável de comandos.

A contradição reside no fato de que o aumento da regulação não assegura, por si só, maior justiça, segurança ou moralidade. Uma sociedade pode possuir inúmeras leis e, ainda assim, apresentar graves deficiências éticas, administrativas e democráticas.

O Direito é necessário porque os seres humanos convivem em meio a diferenças, conflitos e interesses que nem sempre podem ser harmonizados espontaneamente. Contudo, sua necessidade não justifica a pretensão de disciplinar integralmente a existência humana.

A lei deve proteger a liberdade, e não transformar a liberdade em uma concessão condicionada à vigilância permanente. A sanção deve responder a violações juridicamente relevantes, e não substituir políticas públicas capazes de prevenir problemas. A tecnologia deve ampliar as capacidades humanas, e não converter cada cidadão em objeto de monitoramento contínuo.

O futuro do Direito dependerá, em parte, da capacidade de reconhecer esses limites. O desafio não é construir uma sociedade sem leis, mas uma sociedade que não precise transformar todos os seus valores em comandos coercitivos para conseguir conviver.

A verdadeira utopia jurídica talvez não seja aquela em que o Direito desaparece, mas aquela em que ele deixa de precisar ocupar todos os espaços da vida social.

Afinal, quando a sociedade necessita de uma norma para cada passo, talvez o problema não esteja apenas nos passos dos cidadãos, mas também no caminho que as instituições escolheram para conduzi-los.

A liberdade não se realiza pela ausência absoluta de normas, mas pela existência de um Direito legítimo que proteja a autonomia humana sem pretender substituí-la.

Referências bibliográficas

BENTHAM, Jeremy. O panóptico. Organização de Tomaz Tadeu. Tradução de Guacira Lopes Louro, M. D. Magno e Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1995.

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KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2003.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

MORE, Thomas. Utopia. Tradução de Jefferson Luiz Camargo e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 1999.