segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O FUTURO DO DIREITO E O FIM DA MORAL: UTOPIA E CONTRADIÇÃO

 Obs. Este artigo foi reeditado por IA - inteligência artificial, a partir do texto original preservado neste UT QUID

Ementa: Filosofia do Direito. Direito normativo e projeção do futuro. Moralidade, liberdade e regulação das condutas humanas. A utopia como modelo de organização social orientado pela razão, pela educação, pela virtude e pela qualidade das políticas públicas. A contradição entre o desenvolvimento moral da sociedade e a proliferação legislativa. O Geo Posicionamento Jurídico (GPJ) como alegoria do controle estatal permanente. A hipertrofia normativa como possível expressão do enfraquecimento da autonomia moral e da liberdade individual. Reflexões sobre os limites da coerção jurídica e a construção de uma sociedade democrática.

Palavras-chave: Filosofia do Direito; Direito e Moral; Utopia; Liberdade; Hiper-regulação; Políticas Públicas; Democracia; Autonomia moral.

1. Introdução

O Direito, especialmente em sua dimensão normativa, apresenta uma orientação predominantemente prospectiva: estabelece regras destinadas a disciplinar condutas, prevenir conflitos, atribuir consequências jurídicas a determinados fatos e orientar o comportamento social. A norma jurídica, em regra, projeta-se sobre situações futuras, embora o ordenamento também discipline fatos passados, reconheça situações já constituídas e admita, em hipóteses específicas, efeitos retroativos.

Essa característica permite formular uma indagação: até que ponto o Direito, ao pretender organizar o futuro, consegue compreender e transformar o presente?

A questão conduz a outra, de maior profundidade filosófica: uma sociedade que multiplica continuamente suas leis e mecanismos de controle demonstra maior evolução institucional ou revela dificuldades para cultivar os valores morais necessários à convivência coletiva?

É a partir dessas indagações que se desenvolve o presente ensaio, mediante a construção de duas realidades imaginárias e antagônicas: a Ilha da Utopia e o país de Marlboro. A primeira representa uma sociedade que, apoiada na educação, na participação democrática, na boa administração pública e no desenvolvimento das virtudes humanas, reduz progressivamente sua dependência de comandos jurídicos coercitivos. O segundo simboliza uma organização social em que a proliferação de leis, códigos, tribunais e prisões se torna inversamente proporcional à qualidade das políticas públicas e à autonomia moral dos cidadãos.

A contradição entre esses dois modelos permite discutir o futuro do Direito, os limites da regulação estatal e a possibilidade de uma sociedade na qual a moralidade não seja substituída pela vigilância permanente.

2. O Direito normativo e a projeção do futuro

O Direito não se limita a descrever a realidade. Sua dimensão normativa procura influenciar comportamentos, estabelecer deveres, proteger direitos e organizar as relações sociais. A norma jurídica, nesse sentido, constitui um instrumento de orientação da conduta e de prevenção de conflitos.

Entretanto, a produção legislativa não deve ser confundida com a efetiva transformação da sociedade. A edição de uma nova lei pode representar uma resposta necessária a determinado problema, mas também pode constituir uma reação superficial a dificuldades cujas causas se encontram na educação, na desigualdade, na deficiência administrativa ou na ausência de políticas públicas adequadas.

A questão não está, portanto, em rejeitar a lei, mas em compreender seus limites.

O Direito é indispensável à organização democrática, à proteção das liberdades e à contenção do arbítrio. Todavia, sua capacidade de ordenar a sociedade não é ilimitada. A norma pode exigir uma conduta exterior, prever sanções e estabelecer responsabilidades, mas não consegue, por si só, produzir convicções morais autênticas.

Nesse ponto, torna-se pertinente a distinção entre legalidade e moralidade. Uma conduta pode ser juridicamente obrigatória sem decorrer de uma convicção moral do agente; da mesma forma, uma ação pode ser moralmente valiosa sem depender de imposição estatal.

O desafio de uma ordem jurídica democrática consiste em assegurar o cumprimento das normas legítimas sem transformar todos os aspectos da existência humana em objetos de fiscalização e coerção.

3. A Ilha da Utopia: a sociedade que aprende a necessitar de menos coerção

Imaginemos a Ilha da Utopia, inspirada livremente na tradição inaugurada por Thomas More.

Seus primeiros habitantes eram imigrantes e desbravadores provenientes de uma terra natal cuja organização social havia entrado em profundo processo de deterioração. Embora muitos daqueles que partiram fossem pessoas dotadas de capacidade, experiência e discernimento, a sociedade de origem já não correspondia aos seus anseios mínimos de convivência.

A moralidade pública encontrava-se enfraquecida, os costumes perdiam sua função integradora, a educação não conseguia cumprir adequadamente seu papel e a ciência deixava de receber o tratamento necessário ao desenvolvimento coletivo. A má qualidade das políticas públicas, somada à fragilidade ética de setores da sociedade e dos poderes estatais, comprometera a confiança nas instituições.

Ao chegarem à nova terra, os desbravadores trouxeram consigo os hábitos e as referências jurídicas de sua origem. Por precaução, instituíram incontáveis códigos, criaram tribunais e construíram prisões. Pretendiam evitar que os erros do passado se reproduzissem no novo território.

A princípio, a Ilha da Utopia parecia destinada a reproduzir a mesma cultura de controle que seus habitantes haviam deixado para trás.

Entretanto, ocorreu uma transformação decisiva. Os novos habitantes compreenderam que a reconstrução social não poderia depender exclusivamente de proibições, sanções e comandos. Decidiram, por vontade majoritária e mediante diferentes mecanismos de participação democrática, privilegiar políticas públicas orientadas pela educação, pela cultura, pela ciência, pela prevenção dos conflitos e pela valorização da dignidade humana.

As decisões coletivas passaram a considerar a participação direta, a deliberação pública e a representação política, conforme a natureza de cada questão. A administração pública deixou de ser concebida apenas como aparelho de imposição de obrigações e passou a funcionar como instrumento de realização do interesse coletivo.

As relações entre os habitantes foram progressivamente orientadas pela razão, pela responsabilidade, pela confiança e pelo respeito às consequências naturais e sociais das ações humanas.

Nesse ambiente, a educação não se limitava à transmissão de conhecimentos. Contribuía para a formação do juízo crítico, para a compreensão dos deveres coletivos e para o desenvolvimento da autonomia moral.

A sociedade começou, então, a experimentar uma transformação surpreendente: quanto mais se aperfeiçoavam suas instituições e seus cidadãos, menos necessário se tornava recorrer a determinados mecanismos de coerção.

Os antigos códigos, antes considerados indispensáveis à manutenção da ordem, passaram a cair em desuso, na medida em que as situações por eles disciplinadas deixavam de constituir problemas relevantes ou encontravam soluções mais adequadas. Alguns edifícios que haviam abrigado prisões e antigas cortes foram convertidos em espaços de educação, pesquisa e cultura.

Não se tratava do desaparecimento do Direito, mas de sua transformação funcional.

A lei permanecia necessária para proteger direitos, solucionar conflitos e conter abusos. O que diminuía era a dependência de uma normatividade excessiva, destinada a suprir, mediante ameaças e sanções, deficiências que poderiam ser enfrentadas por políticas públicas, instituições confiáveis e formação moral.

Na Ilha da Utopia, o Direito deixava de ocupar todos os espaços da vida social porque a sociedade aprendia a resolver, de maneira responsável, uma parcela crescente de seus próprios problemas.

4. Marlboro: o país das leis incontáveis e das liberdades tuteladas

Em contraposição à Ilha da Utopia, imaginemos Marlboro, o país dos “contáveis homens livres, de livre-arbítrio sobre a coisa pública, e incontáveis tutelados”.

Nesse território, a produção de normas não conhecia descanso. Todos os dias surgiam novas leis, regulamentos, códigos e procedimentos destinados a disciplinar as condutas individuais e coletivas.

Diante de cada dificuldade, a resposta institucional parecia ser a mesma: criar outra obrigação, instituir nova proibição, estabelecer uma sanção adicional ou ampliar os mecanismos de fiscalização.

A multiplicação normativa era apresentada como sinal de modernização e eficiência. Contudo, a realidade demonstrava uma contradição: quanto maior o número de regras, maior parecia a necessidade de novas regras para assegurar o cumprimento das anteriores.

As políticas públicas, por sua vez, não acompanhavam a expansão do aparato jurídico. Faltavam investimentos proporcionais em educação, prevenção, cultura, ciência e serviços públicos. O Estado ampliava sua capacidade de prescrever comportamentos sem desenvolver, na mesma medida, sua capacidade de oferecer condições para que os cidadãos agissem com autonomia e responsabilidade.

Foi nesse contexto que se concebeu um dispositivo fictício denominado Geo Posicionamento Jurídico (GPJ), semelhante a um sistema de navegação por satélite.

O aparelho resultava de um empreendimento interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar, reunindo conhecimentos jurídicos, tecnológicos e científicos. Sua concepção também evocava, por analogia, o Panóptico de Jeremy Bentham, modelo arquitetônico de vigilância que permite pensar as relações entre observação, disciplina e poder.

No país de Marlboro, porém, a vigilância ultrapassava os limites físicos de uma prisão.

Ao sair de casa, cada cidadão deveria portar obrigatoriamente o GPJ, sob pena de multa. A cada deslocamento, intervalo de tempo ou distância percorrida, a tela do dispositivo indicaria a situação jurídica correspondente àquele lugar e momento, apontando obrigações a cumprir e consequências previstas para eventual descumprimento.

O cidadão passava a ser acompanhado por uma espécie de mapa normativo permanente. Cada movimento poderia desencadear uma advertência, uma obrigação ou uma imputação jurídica.

O Direito, concebido originalmente como instrumento de organização da liberdade e proteção da convivência, convertia-se em uma estrutura de tutela contínua.

A liberdade formalmente reconhecida coexistia com a submissão prática a uma rede quase ilimitada de comandos. O indivíduo permanecia livre em tese, mas precisava consultar permanentemente o Estado para saber o que podia ou não fazer.

A metáfora do GPJ evidencia, assim, uma contradição fundamental: quando a legalidade pretende antecipar e disciplinar todos os comportamentos, corre o risco de transformar a vida social em uma sucessão interminável de autorizações, proibições e ameaças de sanção.

Em Marlboro, as leis, os códigos, os tribunais e as prisões tornavam-se incontáveis, enquanto os investimentos e os resultados das políticas públicas permaneciam insuficientes quando comparados aos da Ilha da Utopia.

O crescimento do aparato coercitivo não produzia, necessariamente, uma sociedade mais justa, segura ou virtuosa. Produzia, antes, uma sociedade cada vez mais dependente da fiscalização estatal.

5. A contradição: quando o Direito ocupa o lugar da moral

A comparação entre os dois territórios permite formular a tese central deste artigo: a expansão ilimitada da regulação jurídica pode constituir um indício de insuficiência moral e institucional, em vez de representar, por si só, o progresso da sociedade.

Essa afirmação exige uma ressalva. Nem toda ampliação legislativa é negativa. Novas leis podem ser necessárias para enfrentar formas de violência, proteger grupos vulneráveis, corrigir desigualdades, disciplinar tecnologias emergentes e assegurar direitos fundamentais. A ausência de normas também pode favorecer o arbítrio e a exploração.

O problema surge quando a produção normativa se converte em resposta automática a todo conflito, independentemente da investigação de suas causas e da avaliação da eficácia das medidas adotadas.

Nesse cenário, a norma deixa de ser um instrumento seletivo de proteção de bens jurídicos e passa a funcionar como substituto de políticas públicas consistentes, de instituições responsáveis e de uma cultura de respeito recíproco.

A moral, diferentemente do Direito estatal, envolve a reflexão sobre valores, deveres, responsabilidades e razões para agir. Não se reduz à obediência motivada pelo medo da punição.

Immanuel Kant, ao distinguir a moralidade da mera conformidade exterior ao dever, oferece uma referência importante para compreender essa diferença. Uma ação praticada exclusivamente para evitar uma sanção não possui, por esse único motivo, o mesmo significado moral de uma ação realizada por reconhecimento racional do dever.

A contribuição kantiana não implica que o Direito deva depender da virtude íntima de cada cidadão. O ordenamento jurídico precisa disciplinar relações externas entre pessoas que possuem convicções distintas. Sua legitimidade, contudo, não autoriza o Estado a confundir obediência com formação moral.

Quando a sociedade passa a depender de uma regra para cada gesto, a pergunta deixa de ser apenas se determinada conduta é permitida ou proibida. Torna-se necessário perguntar por que os cidadãos perderam, ou foram impedidos de desenvolver, a capacidade de orientar suas ações sem fiscalização permanente.

A hipertrofia normativa pode, nesse sentido, revelar uma inversão de prioridades: em vez de enfrentar as causas sociais e institucionais dos problemas, o poder público multiplica as consequências jurídicas atribuídas aos comportamentos.

O resultado é uma espécie de círculo vicioso. A insuficiência das políticas públicas alimenta conflitos; os conflitos justificam novas normas; a multiplicação de normas aumenta a complexidade do sistema; e a complexidade amplia a dependência de especialistas, procedimentos e mecanismos de controle.

O Direito passa a administrar continuamente os efeitos de problemas que não consegue prevenir ou resolver em suas origens.

6. O GPJ e a sociedade da vigilância

O GPJ, enquanto construção alegórica, permite aprofundar a reflexão sobre a relação entre tecnologia, Direito e liberdade.

A ideia de um dispositivo capaz de informar ao cidadão, a cada passo, suas obrigações jurídicas representa o limite extremo de uma sociedade que pretende converter a totalidade da vida humana em objeto de regulação.

A analogia com o Panóptico de Jeremy Bentham é especialmente relevante porque desloca a discussão da mera existência de uma estrutura física de vigilância para o problema mais amplo da observação permanente e de seus efeitos sobre o comportamento.

Em uma sociedade submetida a um controle contínuo, a pessoa pode passar a orientar suas ações não pela convicção sobre o que é justo, prudente ou responsável, mas pelo receio de ser observada e punida.

A vigilância deixa de ser apenas um recurso excepcional de proteção e passa a integrar a própria experiência cotidiana da liberdade.

A reflexão de Michel Foucault sobre a disciplina e os mecanismos de poder também contribui para essa análise. Em Vigiar e punir, o autor examina como práticas institucionais de observação, classificação e correção participam da formação de comportamentos e sujeitos disciplinados.

Aplicada à metáfora de Marlboro, essa perspectiva permite perceber que o controle jurídico não se manifesta apenas na existência de sanções. Ele pode estruturar o ambiente no qual as pessoas tomam decisões, restringindo suas possibilidades práticas e incentivando a conformidade permanente.

Isso não significa que toda tecnologia de monitoramento seja ilegítima ou que toda fiscalização estatal deva ser rejeitada. O controle público pode ser necessário para proteger direitos, prevenir danos e assegurar o cumprimento de obrigações legalmente estabelecidas.

A questão decisiva está nos limites: finalidade legítima, necessidade, proporcionalidade, transparência, proteção de dados, possibilidade de contestação e controle democrático.

O GPJ de Marlboro viola esses limites justamente porque transforma a vigilância em condição geral da existência. A tecnologia, em vez de ampliar as capacidades humanas, converte-se em instrumento de tutela.

Nesse ponto, a contradição entre os dois modelos torna-se evidente. Na Ilha da Utopia, o conhecimento e a tecnologia fortalecem a autonomia dos cidadãos; em Marlboro, a inovação serve para tornar mais abrangente a submissão a comandos estatais.

7. Políticas públicas, democracia e formação da autonomia

A oposição entre Utopia e Marlboro não se resume à quantidade de leis. Seu fundamento está na maneira como cada sociedade compreende a função do Estado.

Na Ilha da Utopia, a ação estatal prioriza a prevenção dos conflitos e a criação de condições para o desenvolvimento humano. A educação, a cultura, a ciência e a participação democrática são tratadas como instrumentos de transformação social.

Em Marlboro, prevalece a confiança excessiva na capacidade da norma de corrigir comportamentos, enquanto as políticas públicas permanecem secundárias.

Essa diferença conduz a uma conclusão importante: a qualidade da ordem jurídica depende também da qualidade das instituições que a produzem e das condições sociais que permitem sua aplicação legítima.

A democracia não se esgota na aprovação formal de leis. Exige participação, deliberação, transparência, responsabilização dos agentes públicos e condições efetivas para que os cidadãos influenciem as decisões coletivas.

A participação democrática, seja direta, deliberativa ou representativa, deve contribuir para que os problemas sejam identificados em suas causas, as alternativas sejam avaliadas e os resultados das políticas públicas sejam submetidos ao escrutínio social.

A produção legislativa deixa, então, de ser medida exclusivamente pelo número de normas editadas e passa a ser avaliada por sua necessidade, coerência, legitimidade e capacidade de produzir resultados compatíveis com os direitos fundamentais.

Uma sociedade democrática não deve pretender eliminar o Direito, mas impedir que ele se converta em finalidade autônoma, desvinculada das necessidades humanas que justificam sua existência.

O Estado de Direito não é aquele que simplesmente produz mais normas, mas aquele que se submete à Constituição, respeita os direitos fundamentais, limita o exercício do poder e oferece instrumentos efetivos para a solução justa dos conflitos.

A Ilha da Utopia representa, portanto, não uma sociedade sem instituições jurídicas, mas uma comunidade na qual o Direito, a moral, a educação e as políticas públicas mantêm relações de complementaridade, sem que a coerção estatal ocupe todos os espaços da vida social.

8. O futuro do Direito e a possibilidade de uma sociedade menos prescritiva

A pergunta que dá título a este artigo contém duas ideias que precisam ser examinadas conjuntamente: o futuro do Direito e o fim da moral.

O fim da moral pode ser compreendido, neste ensaio, não como uma previsão inevitável, mas como uma hipótese crítica: o risco de que a autonomia moral seja progressivamente substituída pela obediência externa, pela fiscalização e pelo medo da sanção.

Se toda conduta depender de uma determinação estatal minuciosa, a moralidade poderá perder espaço como dimensão autônoma da experiência humana. A pessoa deixará de perguntar se uma ação é justa ou responsável e passará a perguntar, prioritariamente, se ela está juridicamente autorizada.

Nesse contexto, o futuro do Direito não deveria ser medido pela extensão de seu alcance, mas pela capacidade de estabelecer limites legítimos ao poder, proteger a liberdade e contribuir para uma convivência social responsável.

Uma ordem jurídica madura precisa saber quando intervir e quando reconhecer espaços de autonomia. Deve distinguir os comportamentos que exigem disciplina jurídica daqueles que podem ser orientados pela educação, pela consciência, pela responsabilidade individual e pelos mecanismos espontâneos de cooperação social.

A redução de normas desnecessárias, a avaliação dos efeitos da legislação, a simplificação administrativa e o investimento em políticas públicas podem contribuir para diminuir a dependência excessiva da coerção.

Isso não pressupõe a eliminação dos tribunais, das sanções ou das prisões, cuja existência pode ser indispensável à proteção dos direitos. Pressupõe, antes, que esses instrumentos sejam utilizados de maneira necessária, proporcional e compatível com a dignidade humana.

A utopia, nesse sentido, não deve ser entendida como um destino perfeito e definitivamente alcançado. Constitui um horizonte crítico que permite avaliar a distância entre a sociedade existente e aquela que se pretende construir.

O seu valor reside justamente em questionar a naturalização de instituições, práticas e mecanismos de controle que, embora historicamente construídos, não são imunes à crítica e à transformação.

9. Conclusão

A história da contradição entre a Ilha da Utopia e o país de Marlboro permite refletir sobre dois caminhos possíveis para o desenvolvimento do Direito.

No primeiro, a sociedade investe na educação, na cultura, na ciência, na participação democrática e na qualidade das políticas públicas. O fortalecimento da autonomia moral e das instituições contribui para reduzir a necessidade de determinados mecanismos coercitivos, sem eliminar a função protetiva do ordenamento jurídico.

No segundo, a insuficiência das políticas públicas e a fragilidade da confiança institucional são enfrentadas, predominantemente, pela multiplicação de leis, códigos, sanções e instrumentos de vigilância. A liberdade permanece formalmente reconhecida, mas seu exercício concreto passa a depender de uma sucessão interminável de comandos.

A contradição reside no fato de que o aumento da regulação não assegura, por si só, maior justiça, segurança ou moralidade. Uma sociedade pode possuir inúmeras leis e, ainda assim, apresentar graves deficiências éticas, administrativas e democráticas.

O Direito é necessário porque os seres humanos convivem em meio a diferenças, conflitos e interesses que nem sempre podem ser harmonizados espontaneamente. Contudo, sua necessidade não justifica a pretensão de disciplinar integralmente a existência humana.

A lei deve proteger a liberdade, e não transformar a liberdade em uma concessão condicionada à vigilância permanente. A sanção deve responder a violações juridicamente relevantes, e não substituir políticas públicas capazes de prevenir problemas. A tecnologia deve ampliar as capacidades humanas, e não converter cada cidadão em objeto de monitoramento contínuo.

O futuro do Direito dependerá, em parte, da capacidade de reconhecer esses limites. O desafio não é construir uma sociedade sem leis, mas uma sociedade que não precise transformar todos os seus valores em comandos coercitivos para conseguir conviver.

A verdadeira utopia jurídica talvez não seja aquela em que o Direito desaparece, mas aquela em que ele deixa de precisar ocupar todos os espaços da vida social.

Afinal, quando a sociedade necessita de uma norma para cada passo, talvez o problema não esteja apenas nos passos dos cidadãos, mas também no caminho que as instituições escolheram para conduzi-los.

A liberdade não se realiza pela ausência absoluta de normas, mas pela existência de um Direito legítimo que proteja a autonomia humana sem pretender substituí-la.

Referências bibliográficas

BENTHAM, Jeremy. O panóptico. Organização de Tomaz Tadeu. Tradução de Guacira Lopes Louro, M. D. Magno e Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1995.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987.

KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2003.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

MORE, Thomas. Utopia. Tradução de Jefferson Luiz Camargo e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

sábado, 17 de outubro de 2026

Quem Governa? Não aos Estigmas. Sim à Organização e Controle!

 Obs. Este artigo foi refeito por IA – inteligência artificial, contudo o texto original está preservado neste Blog UT QUID


Por Milton Luiz Gazaniga de Oliveira

Ementa:
O presente artigo analisa a problemática da legitimidade do poder soberano e as diferentes matrizes de governabilidade histórica e contemporânea. Contrapõe-se a busca pela identidade ideal do governante — frequentemente pautada em discursos estigmatizados ou corporativistas — à necessidade imperativa de organização estrutural e controle institucional rígido sobre o Estado. Discute-se o papel da Constituição do Brasil como ferramenta de fiscalização formal e material, criticando os excessos do dirigismo estatal, a doutrinação ideológica nas ciências jurídicas e a inversão retórica que politiza a moralidade em vez de moralizar a política. Defende-se, por fim, a preservação da liberdade individual e a eficiência fiscal como pilares indispensáveis à sustentabilidade democrática.

Palavras-chave: Governança; Controle Constitucional; Liberdade Individual; Moralidade Política; Responsabilidade Fiscal.


A indagação sobre quem deve exercer o poder soberano reverbera ao longo da história da filosofia política sob os mais diversos arquétipos. Questiona-se se o governo deve pertencer à maioria, aos mais sábios, aos mais fortes, aos portadores de prerrogativas de classe, a uma suposta raça superior ou, em linhas mais recentes, aos grupos historicamente estigmatizados que clamam por reparação jurídica e política. Embora os padrões ideais variem, a práxis demonstra que a rejeição coletiva converge com facilidade para um ponto comum: a negação contundente ao governo dos piores, dos incompetentes, dos amorais e dos corruptos. Diante dessa premissa, o cerne do debate público deve deslocar-se da mera escolha do soberano para a sofisticação de sua organização e, fundamentalmente, de seu controle.

O Estado contemporâneo não se sustenta mais sobre divisões anacrônicas entre burgueses e proletários, mas sim sobre a complexa articulação de pilares políticos, econômicos e ideológicos — estes entendidos como matrizes de saber e tecnologia. A economia, enquanto geradora de riquezas, viabiliza as obras, bens e serviços públicos por meio da arrecadação tributária. Torna-se imperativo, portanto, que a organização governamental esteja submetida a um controle visível, legível e material por parte do cidadão, independentemente de o poder ser exercido por uma maioria ou por uma minoria organizada. Controlar o Soberano, ainda que este seja o próprio povo representado pelo voto, é a garantia fundamental da sobrevivência democrática.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 edifica um arcabouço robusto de modalidades de controle político, jurídico, social e de transparência. Instrumentos como as eleições periódicas — cuja alternância representa a primeira salvaguarda democrática, malgrado as distorções introduzidas pelo instituto da reeleição —, o processo de impeachment, as ações populares e as ações civis públicas demonstram que o sistema normativo possui ferramentas formais em abundância. O óbice reside, contudo, na falta de efetividade material desse sistema constitucional e infraconstitucional, o qual carece de ajustes pontuais para conferir praticidade e eficácia ao controle cotidiano das instituições.

A finalidade última desse arranjo fiscalizatório é a preservação da liberdade individual. A liberdade, no entanto, pressupõe a reciprocidade e o respeito aos limites que impedem o dano ao outrem, exigindo que os cidadãos se abstenham de condutas prejudiciais em troca da garantia de seus próprios direitos. Se por um lado o ordenamento jurídico baliza essas fronteiras, por outro, o controle hipertrofiado do Estado e a imposição de modelos educacionais fechados culminam inevitavelmente na doutrinação. No campo das ciências jurídicas, tal fenômeno manifesta-se no "encantamento ideológico" promovido por intelectuais que, sob o manto do pluralismo, adotam discursos retóricos monistas, sufocando as liberdades individuais e biológicas em prol de um adestramento psicológico sectário que distorce o pensamento existencialista clássico.

Esse descompasso ideológico estende-se à defesa de um garantismo jurídico puramente abstrato, que substancia direitos sem o devido respaldo nas receitas do Estado. A imposição de garantias naturais inalienáveis desvinculadas da realidade macroeconômica sobrecarrega as finanças públicas, inviabilizando a própria estrutura estatal. Da mesma forma, teorias argumentativas que buscam validar o direito exclusivamente por meio de uma moral coletiva ou comunitária tendem a aniquilar o indivíduo, resultando em uma solidariedade mecânica e totalitária de grupo, em vez de uma integração orgânica e racional.

O risco iminente dessa dinâmica reside na politização da moralidade. O verdadeiro anseio republicano deve ser o de moralizar a política, e não o de transformar a moral em instrumento de disputa ideológica. Quando a moral é excessivamente politizada, criam-se e destroem-se valores sem mensuração, priorizando discursos sectários de minorias que impõem estigmas comportamentais em nome de um suposto interesse coletivo, aviltando a razão e a autonomia individual.

A organização e o controle social da máquina pública revelam-se instâncias nitidamente mais cruciais do que o padrão de governo adotado ou a identidade de quem ocupa transitoriamente o poder. Não se pode anuir com novos discursos estigmatizados que outrora se fundamentaram na raça e hoje utilizam o vitimismo de grupo ou traumas do passado para avocar o direito de governar à revelia da competência técnica e da responsabilidade institucional. A era contemporânea exige o controle rigoroso do povo sobre o próprio Soberano, consolidando a transparência e a eficiência material como as verdadeiras garantias da liberdade.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Física da Mente: Como a Leitura Altera a Nossa Órbita Social

 


(Obs. Este texto foi elaborado por IA, cujo original foi extraído de outra postagem deste UT QUID:  “Alerta. A boa leitura, causa e consequências!”

 Em um mundo saturado de estímulos rápidos e superficiais, a análise do escritor Milton Luiz Gazaniga de Oliveira nos convida a enxergar o ato de ler sob uma perspectiva inusitada: a das ciências exatas. Ao metáforas como o "movimento uniformemente variado" e o "eixo gravitacional" para descrever o impacto dos livros na mente humana, o autor nos confronta com uma realidade inegável: a leitura não é um ato estático; ela é uma força de aceleração intelectual que redefine nossa trajetória no espaço social.

A premissa de que a boa leitura acelera progressivamente os pensamentos é um excelente ponto de partida. Quando nos dedicamos aos livros, abandonamos o "ponto zero" da inércia cognitiva. O conhecimento expande a consciência de tal forma que o indivíduo inevitavelmente se distancia do senso comum — o chamado "eixo inicial". Essa distância, contudo, cobra um preço. Como bem pontua Oliveira, aqueles que mergulham profundamente nos estudos muitas vezes se tornam "invisíveis" ou incompreendidos por quem está ao redor. O distanciamento cultural cria um abismo comunicacional, onde a genialidade frequentemente é confundida com a loucura por aqueles que não possuem as ferramentas intelectuais para mensurar o valor dessa transformação.

Por outro lado, o texto acerta cirurgicamente ao descrever o perigo do "movimento retrógrado". A recusa pelo saber e a falta de hábito de leitura geram um declínio visível na capacidade crítica da sociedade. Em uma era de desinformação em massa, a ausência de letramento crítico empurra indivíduos para uma trajetória negativa. O resultado mais catastrófico desse fenômeno é o surgimento de lideranças vazias, porém carismáticas, capazes de arrastar multidões para o erro coletivo. Sem a bússola do conhecimento, o corpo social perde a capacidade de calcular os riscos de suas escolhas.

Entretanto, é no desfecho de Oliveira que reside o ponto de maior debate: a busca pela moderação como um ponto de equilíbrio para evitar a loucura. Embora a prudência pareça um porto seguro para o homem comum, cabe questionar se a moderação no esclarecimento não seria uma forma voluntária de autolimitação. Afinal, os grandes saltos da humanidade nasceram justamente daqueles que ousaram perder o equilíbrio e romper totalmente com o seu eixo inicial. A linha entre a genialidade e a insanidade é tênue, mas é nessa fronteira que a inovação acontece.

Portanto, a leitura deve ser encarada como essa força gravitacional irresistível. Se a busca intensa pelo conhecimento nos afasta de uma normalidade confortável, ela também nos protege da escuridão do retrocesso intelectual. Encontrar o equilíbrio entre a expansão da mente e a conexão com a realidade do outro é o verdadeiro cálculo complexo que todos nós, leitores, precisamos aprender a resolver.

domingo, 11 de outubro de 2026

Atenção - https://utquid.blogspot.com/

Depois de 10 anos voltei a “reescrever” no meu UT QUID, plataforma Blogger. No entanto estou reeditando nos próximos meses os mesmos textos no modo IA – inteligência artificial, ou seja, criando essa versão nova, porém preservando intacto os antigos textos, pois imagino ou imaginava possuírem  uma linguagem carregada de um olhar mais filosófico.

O PROCESSO - artigo deste UT Quid refeito por IA

 O PROCESSO: PRIMEIRO A PACIFICAÇÃO SOCIAL, DEPOIS A JUSTIÇA

Uma reflexão crítica sobre o devido processo legal, o poder e a natureza humana

Autor: Milton Luiz Gazaniga de Oliveira

Ementa

Processo. Devido processo legal. Pacificação social. Justiça. Poder político. Regimes democráticos e totalitários. Controle das paixões. Responsabilidade humana. Trânsito em julgado. O processo judicial, embora concebido como instrumento de garantia de direitos e de realização da justiça, também pode ser utilizado como mecanismo de legitimação do poder, de exposição pública do acusado e de produção de conformidade social. Entre a busca da verdade, a necessidade de resolver conflitos e a imposição de uma decisão definitiva, o processo revela uma das contradições fundamentais da experiência humana: nem toda decisão que pacifica é necessariamente justa, assim como nem toda justiça se realiza pela simples observância das formas processuais.

Palavras-chave: Processo; justiça; pacificação social; devido processo legal; poder; natureza humana.

1. Introdução: o fim da inocência romântica sobre o processo

Durante muito tempo, cultivei uma visão romântica do processo. Via nele um instrumento civilizatório por excelência, destinado a permitir que o Direito, por meio de suas formas, regras e solenidades, pudesse solucionar os conflitos humanos de maneira racional, imparcial e justa.

Refiro-me ao processo no qual o direito material é submetido a uma discussão formalmente organizada, mediante procedimentos e rituais jurídicos destinados a alcançar determinado resultado quanto à aplicação, ao reconhecimento ou à exclusão de direitos e obrigações diante de um ato ou fato controvertido.

Essa concepção encontra fundamento no Estado de Direito, especialmente no princípio do devido processo legal, previsto no artigo 5º, inciso LIV, da Constituição Federal de 1988:

“ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.

A garantia constitucional constitui uma conquista histórica contra a arbitrariedade. O Estado não pode, legitimamente, retirar a liberdade ou os bens de alguém sem observar as garantias jurídicas aplicáveis. O processo, portanto, não é mera formalidade: é um instrumento de contenção do poder e de proteção dos direitos fundamentais.

Entretanto, o amadurecimento de minha reflexão conduziu-me a uma dúvida incômoda: será que o processo existe primordialmente para realizar a justiça ou, antes disso, para produzir a pacificação social?

A pergunta não pretende negar a importância da justiça, tampouco diminuir o valor das garantias processuais. Pretende, antes, investigar uma contradição: o processo pode cumprir sua função de encerrar um conflito mesmo quando a decisão proferida não corresponde, em sentido substancial, àquilo que consideramos justo.

É nessa tensão que se encontra o objeto deste artigo.

2. O processo como instrumento democrático e mecanismo de poder

O processo judicial ocupa posição essencial nos regimes democráticos. Por meio dele, os cidadãos podem contestar decisões administrativas, defender seu patrimônio, exigir prestações estatais, responsabilizar agentes públicos e buscar a proteção de seus direitos.

Todavia, o processo não é uma instituição exclusiva da democracia. Procedimentos judiciais também existem em regimes absolutistas, autoritários e totalitários, inclusive naqueles que admitem penas extremas, como a prisão perpétua ou a pena de morte, onde esta ainda é juridicamente prevista e aplicada.

Essa constatação conduz a uma reflexão crítica: a simples existência de tribunais, juízes, advogados, recursos e solenidades não garante, por si só, a existência de justiça.

Um regime autoritário pode submeter seus adversários a julgamentos formalmente organizados e, ainda assim, manipular as instituições, restringir a defesa, controlar os julgadores ou estabelecer previamente o resultado pretendido.

Em tais circunstâncias, o processo deixa de operar plenamente como limite ao poder e passa a funcionar como instrumento de sua legitimação.

Em vez de eliminar sumariamente o adversário, o poder pode submetê-lo a um julgamento público, produzindo a aparência de legalidade e imparcialidade. A sentença passa, então, a desempenhar uma função política: apresentar a condenação como resultado de uma decisão institucional, e não como simples manifestação da vontade do governante.

Trata-se de uma hipótese particularmente grave, pois a forma jurídica, concebida para conter a arbitrariedade, pode ser apropriada pela própria arbitrariedade.

O problema não está no processo em si, mas na possibilidade de que suas garantias sejam reduzidas a uma representação teatral da justiça.

3. O julgamento como encenação da imparcialidade

Nos regimes autoritários, o julgamento pode assumir funções que ultrapassam a solução jurídica do caso concreto. Uma delas consiste em transferir para a instituição judicial a responsabilidade pública pela condenação.

O governante que determina ou deseja a eliminação de um adversário pode preferir que a decisão seja formalmente atribuída a um tribunal. Dessa maneira, a violência estatal aparece revestida de uma justificativa jurídica.

A condenação deixa de ser apresentada como ato de vontade política e passa a ser divulgada como consequência de um procedimento supostamente imparcial.

O julgamento, nessa hipótese, cumpre duas funções: procura conferir legitimidade à decisão perante a opinião pública e diluir a responsabilidade política de quem exerce o poder.

Também pode ocorrer a desmoralização prévia do acusado. A exposição pública, a seleção parcial dos fatos e a repetição de acusações podem produzir um ambiente no qual a condenação seja socialmente desejada antes mesmo de o julgamento terminar.

O processo transforma-se, então, em espetáculo. O acusado já não é visto como sujeito de direitos, mas como personagem de uma narrativa construída para confirmar a culpa que se pretende demonstrar.

É preciso, contudo, distinguir essa utilização perversa das instituições da função legítima do julgamento. A publicidade processual, o contraditório, a ampla defesa e a fundamentação das decisões são garantias essenciais, não instrumentos de propaganda. O desvio acontece quando essas formas são mantidas apenas exteriormente, enquanto sua substância é destruída.

A justiça não se confunde com a aparência de justiça.

4. A pluralidade de julgadores e a responsabilidade pela condenação

A possibilidade de revisão das decisões por órgãos judiciais colegiados constitui importante garantia contra erros e arbitrariedades. O duplo grau de jurisdição, nos limites em que é assegurado pelo ordenamento jurídico, permite que uma decisão seja reexaminada por outro órgão judicial.

A existência de mais de um julgador, entretanto, não garante automaticamente a justiça do resultado. Um tribunal colegiado também pode reproduzir preconceitos, sofrer pressões externas ou atuar dentro de uma estrutura institucional comprometida com determinada orientação política.

A colegialidade é uma garantia relevante, mas não substitui a independência judicial.

É possível formular, a partir disso, uma hipótese sociopolítica: a distribuição da responsabilidade entre vários julgadores pode tornar menos visível a responsabilidade individual pela condenação. O poder deixa de aparecer concentrado em uma única pessoa e passa a ser representado por uma instituição.

Não se deve afirmar que essa seja a finalidade necessária dos tribunais colegiados. Em um Estado democrático, sua função é justamente ampliar a possibilidade de revisão, aprimorar a deliberação e reduzir os riscos de erro.

O problema surge quando a pluralidade formal de julgadores serve para ocultar a ausência de independência real.

Também é necessário distinguir o duplo grau de jurisdição da vedação aos tribunais de exceção. São garantias relacionadas à proteção do indivíduo, mas diferentes entre si. A Constituição Federal proíbe juízos ou tribunais de exceção no artigo 5º, inciso XXXVII, enquanto o devido processo legal está previsto no inciso LIV.

Assim, não basta que a condenação seja pronunciada por vários juízes. É necessário que o órgão seja competente, independente e imparcial, e que o acusado tenha assegurados os direitos processuais aplicáveis.

5. O discurso do ódio e a fabricação da solidariedade coletiva

Outra possibilidade de instrumentalização política do processo consiste em utilizá-lo como mecanismo de formação de uma consciência coletiva hostil ao acusado.

Em determinadas circunstâncias, a acusação deixa de se limitar à investigação de uma conduta individual e passa a representar uma disputa entre grupos, ideologias ou projetos de sociedade.

O acusado torna-se símbolo de tudo aquilo que o poder pretende combater. Sua condenação é apresentada como uma vitória coletiva, e a punição passa a ser celebrada como demonstração de força e unidade.

Nesse contexto, o discurso de ódio pode funcionar como mecanismo de mobilização política. A construção de um inimigo comum favorece a identificação entre os integrantes do grupo dominante e transforma a hostilidade em aparente virtude cívica.

O sentimento de solidariedade, que deveria encontrar fundamento no reconhecimento recíproco e na dignidade humana, passa a ser construído pela rejeição de um terceiro.

A unidade coletiva já não decorre daquilo que as pessoas compartilham de positivo, mas daquilo que aprenderam a odiar em conjunto.

Essa dinâmica ajuda a compreender por que determinados julgamentos assumem proporções simbólicas que ultrapassam o destino individual do réu. A condenação passa a ser apresentada como uma lição pública, destinada a intimidar dissidentes, disciplinar comportamentos e reforçar a autoridade política.

A história demonstra, contudo, que a linguagem jurídica pode ser empregada tanto para proteger a dignidade humana quanto para legitimar perseguições. Por isso, a existência de um processo não dispensa a análise crítica das condições em que ele se desenvolve.

6. O processo e a tragédia humana: a contribuição de Kafka

O processo também pode ser compreendido como experiência psicológica e existencial. Para muitas pessoas, ser processado significa ingressar em um território de incerteza, no qual o futuro pessoal, patrimonial ou profissional passa a depender de decisões que nem sempre conseguem compreender ou antecipar.

A angústia não decorre exclusivamente do risco de uma condenação. Surge também da duração do procedimento, dos custos, da exposição pública, da necessidade de organizar a própria defesa e da impossibilidade de controlar integralmente os acontecimentos.

Nesse sentido, a literatura oferece uma contribuição indispensável à compreensão do fenômeno processual.

Em O processo, de Franz Kafka, o personagem Josef K., funcionário de um banco, é submetido a uma acusação cuja natureza não consegue compreender plenamente. A narrativa constrói um universo em que a autoridade judicial se apresenta como uma estrutura obscura, burocrática e aparentemente inacessível.

O drama do personagem não se limita ao risco de uma sanção. Ele consiste também na impossibilidade de compreender as razões e a lógica do poder que o julga.

Kafka permite perceber que o processo pode converter-se em experiência de alienação: o indivíduo passa a viver em função de uma acusação que não domina, diante de instituições cujos procedimentos parecem escapar à sua capacidade de compreensão.

A obra não deve ser tomada como descrição literal do funcionamento de todo sistema judicial. Sua força está em revelar, literariamente, o perigo de uma estrutura institucional que conserva a autoridade de julgar, mas perde a transparência e a capacidade de oferecer ao indivíduo uma resposta inteligível.

Quando o processo deixa de ser compreensível, acessível e controlável por garantias efetivas, a própria ideia de justiça começa a se desfazer.

7. O processo como controle das paixões

Apesar de suas contradições, o processo desempenha uma função civilizatória de grande relevância: oferece um espaço institucional para que conflitos sejam examinados sem que sua solução dependa exclusivamente da força, da vingança ou da reação emocional das partes.

Nas grandes injustiças, especialmente nas de caráter coletivo, as paixões tendem a assumir o comando. A indignação pode transformar-se em ressentimento; o ressentimento, em desejo de punição; e o desejo de punição, em justificativa para novas injustiças.

O processo introduz, ao menos em sua concepção legítima, um intervalo entre a emoção e a decisão.

Nesse intervalo, exige-se a apresentação de argumentos, a exposição de provas, a contestação das alegações e a fundamentação das conclusões. A decisão deixa de depender exclusivamente da intensidade dos sentimentos e passa a ser submetida a critérios previamente estabelecidos.

Não significa que o processo elimine as paixões humanas. Juízes, advogados, partes e testemunhas continuam sujeitos a preconceitos, interesses, medos e ressentimentos. O que se pretende é submetê-los a regras de racionalidade, controle e responsabilidade.

A reflexão jurídica, nesse sentido, aproxima-se de uma questão filosófica mais ampla: a necessidade de que a paixão seja examinada pela razão antes de se converter em ação.

O processo pode contribuir para essa transformação, mas não a assegura automaticamente. Para que cumpra sua função civilizatória, é necessário que as garantias processuais sejam efetivas e que a decisão não esteja previamente subordinada a interesses estranhos ao Direito.

O verdadeiro mérito do processo não reside em transformar toda condenação em justiça, mas em criar condições para que a decisão seja examinada, contestada e justificada.

8. A concepção pessimista da natureza humana nas leis processuais

Há, nas normas processuais, uma percepção realista — por vezes pessimista — da natureza humana.

Os ordenamentos jurídicos preveem consequências para condutas como a fraude processual, a litigância de má-fé, a criação injustificada de obstáculos, o descumprimento de deveres processuais e a resistência indevida à efetivação das decisões judiciais.

Essas regras partem do reconhecimento de que as partes nem sempre agirão de maneira cooperativa, leal ou responsável.

Se todos os participantes de um processo apresentassem espontaneamente a verdade, respeitassem os direitos alheios e cumprissem voluntariamente as obrigações reconhecidas, a necessidade de coerção judicial seria consideravelmente menor.

A realidade, porém, é diferente.

Interesses econômicos, disputas patrimoniais, ressentimentos pessoais e estratégias de poder podem levar alguém a ocultar informações, retardar procedimentos ou resistir ao cumprimento de uma obrigação legítima.

O processo precisa, portanto, de mecanismos capazes de enfrentar comportamentos abusivos.

Isso não autoriza concluir que toda pessoa envolvida em um processo seja moralmente suspeita. O simples fato de alguém recorrer ao Judiciário não revela falta de caráter, assim como a resistência a uma pretensão não significa necessariamente má-fé. A defesa de direitos, a apresentação de recursos e a contestação de decisões são manifestações legítimas do Estado de Direito.

O que as regras processuais reconhecem é a possibilidade de abuso e a necessidade de preveni-lo.

O processo revela, assim, uma contradição humana: precisa confiar na capacidade de argumentação e de autocontrole das pessoas, mas também deve estar preparado para a hipótese de que elas não cumpram espontaneamente os deveres que lhes cabem.

9. O trânsito em julgado e a necessidade de encerrar os conflitos

Chegamos a um dos pontos centrais desta reflexão: a necessidade de que os conflitos tenham um fim institucional.

O processo pode prolongar-se por anos, atravessar diferentes instâncias e produzir decisões sucessivas. Enquanto permanece aberta a possibilidade de discussão judicial, as partes podem continuar submetidas à incerteza, aos custos e às consequências práticas do conflito.

Por isso, o ordenamento jurídico estabelece mecanismos de estabilização das decisões, entre os quais se destaca o trânsito em julgado, entendido como o momento em que a decisão não está mais sujeita a recurso.

O trânsito em julgado não significa que a decisão seja necessariamente perfeita, nem constitui prova absoluta de que a justiça material foi alcançada. Significa, juridicamente, que se encerrou a possibilidade ordinária de impugnação recursal daquela decisão, ressalvadas as hipóteses excepcionais previstas em lei.

A sociedade não pode permanecer indefinidamente submetida à reabertura de toda controvérsia. A segurança jurídica exige que, em determinado momento, as decisões adquiram estabilidade e possam produzir seus efeitos.

Nesse sentido, o processo cumpre uma função que vai além da solução individual do litígio: contribui para a pacificação social.

É aqui que se encontra a tese que dá título a este artigo.

O processo pode alcançar a pacificação social mesmo quando não consegue realizar plenamente a justiça. A decisão definitiva encerra juridicamente uma controvérsia, mas não necessariamente elimina o sentimento de injustiça de quem perdeu, nem garante que a sociedade reconheça como moralmente correta a solução adotada.

A pacificação jurídica e a justiça substancial são dimensões relacionadas, mas não idênticas.

Uma decisão injusta pode produzir estabilidade temporária; uma decisão justa, por sua vez, pode não ser suficiente para recompor relações humanas profundamente deterioradas. O ideal do Estado de Direito consiste em aproximar essas dimensões, sem confundir uma com a outra.

O trânsito em julgado é, portanto, uma condição de estabilidade institucional, não um certificado infalível de justiça.

10. O processo como forma de vingança civilizada

Se o processo nasce de um conflito que não foi solucionado voluntariamente, é possível interpretá-lo como uma forma institucionalizada de substituição da vingança privada.

Nas sociedades em que a força individual determinava o resultado das disputas, a satisfação da pretensão dependia frequentemente da capacidade de impor a própria vontade ao adversário. A institucionalização da justiça procurou retirar dos indivíduos o poder irrestrito de fazer justiça pelas próprias mãos.

O Estado passou a oferecer procedimentos para a apuração dos fatos, a definição de responsabilidades e a imposição de consequências jurídicas.

Sob essa perspectiva crítica, o processo pode ser descrito como uma forma de vingança civilizada, desde que a expressão seja entendida metaforicamente e não como sua finalidade jurídica legítima.

A vingança privada procura causar ao adversário um mal correspondente ao sofrimento que se atribui a ele. O processo, em sua concepção democrática, deve substituir essa lógica por uma resposta institucional, proporcional, fundamentada e submetida a garantias.

Não se trata de legitimar a vingança, mas de reconhecer que o impulso de retribuição integra muitos conflitos humanos e que o Direito precisa contê-lo.

É precisamente por isso que a justiça não pode ser reduzida ao desejo de punir. Uma sociedade verdadeiramente civilizada não é aquela que encontra meios cada vez mais sofisticados de castigar, mas aquela que consegue responsabilizar sem desumanizar, reparar sem perseguir e decidir sem abandonar a imparcialidade.

Nesse contexto, ganha força a hipótese de que, onde houver maior responsabilidade, solidariedade e disposição para a composição voluntária, haverá menos necessidade de processos judiciais.

A ideia pode ser expressa em termos mais incisivos: onde o entendimento prevalece, diminui o espaço da litigiosidade; onde o diálogo fracassa, o processo se torna necessário.

11. A contribuição de Carnelutti: o processo e o amor

Francesco Carnelutti, jurista italiano de grande influência na teoria do processo, oferece uma perspectiva humanista sobre o fenômeno jurídico. Sua reflexão permite pensar a atividade processual para além do formalismo e reconhecer a presença do sofrimento humano nos conflitos submetidos à justiça.

A conhecida associação entre o processo e o amor deve ser compreendida como uma provocação ética: o Direito não deveria perder de vista a humanidade das pessoas envolvidas nos litígios.

Não é necessário atribuir ao autor uma fórmula literal específica para reconhecer a relevância dessa aproximação. O que importa é a possibilidade de pensar o processo como atividade que exige compreensão, responsabilidade e respeito à dignidade humana.

Minha posição, entretanto, é menos romântica.

Se o amor, entendido como consideração pelo outro, fosse predominante nas relações humanas, muitos conflitos não chegariam aos tribunais. As pessoas cumpririam suas obrigações, reconheceriam seus erros, reparariam os danos causados e buscariam soluções consensuais antes de recorrer à coerção estatal.

Mas o processo existe justamente porque essa disposição não é universal.

Por isso, não consigo vê-lo apenas como instrumento de distribuição de amor. Vejo nele, sobretudo, uma resposta institucional à incapacidade humana de solucionar todos os conflitos por meio do entendimento espontâneo.

A mediação e a conciliação representam, nesse cenário, alternativas particularmente relevantes. Ao estimularem o diálogo, a identificação dos interesses e a construção de soluções consensuais, procuram evitar que a decisão sobre o conflito dependa exclusivamente da imposição de uma vontade sobre a outra.

Não eliminam a necessidade do processo judicial, mas demonstram que a pacificação pode ser alcançada por caminhos que valorizam a autonomia, a responsabilidade e a cooperação.

O processo contencioso e os métodos consensuais não precisam ser vistos como adversários. Ambos podem integrar uma política de tratamento adequado dos conflitos, desde que se respeitem os direitos indisponíveis, as garantias legais e a liberdade real de participação dos envolvidos.

12. Conclusão: primeiro a pacificação social, depois a justiça?

Ao longo desta reflexão, procurei afastar a concepção excessivamente romântica do processo como caminho necessariamente destinado à justiça.

O processo é uma conquista civilizatória, mas não está imune à manipulação. Pode proteger a liberdade ou servir à opressão; pode esclarecer os fatos ou encobrir interesses; pode conter as paixões ou alimentá-las; pode restaurar relações sociais ou aprofundar divisões.

Tudo depende, em grande medida, das instituições, das garantias efetivamente respeitadas e da responsabilidade daqueles que participam da atividade jurisdicional.

A existência de um procedimento formal não assegura, isoladamente, a justiça. Um julgamento pode observar determinadas solenidades e ainda assim ser marcado por parcialidade, perseguição ou abuso de poder. Da mesma forma, uma decisão definitiva pode encerrar juridicamente um conflito sem eliminar a percepção de injustiça que ele produziu.

Por isso, a pacificação social deve ser compreendida como uma das finalidades relevantes do processo, mas não como justificativa suficiente para qualquer resultado.

A estabilidade não pode servir de pretexto para sacrificar direitos fundamentais. A segurança jurídica não deve transformar a injustiça em virtude, nem o trânsito em julgado deve ser confundido com uma verdade moral absoluta.

O desafio consiste em alcançar uma pacificação fundada no respeito aos direitos, e não simplesmente no silêncio dos vencidos.

Minha conclusão permanece crítica: o processo é necessário porque a humanidade ainda não aprendeu a resolver voluntariamente todos os seus conflitos. Ele substitui a força privada pela força institucional, submete a pretensão de cada parte a regras comuns e oferece um caminho para que a controvérsia encontre um desfecho.

Nesse sentido, pode ser considerado uma forma civilizada de conter a vingança, disciplinar as paixões e estabelecer limites à força.

Mas não devemos esquecer que a justiça é o ideal que legitima essa atividade, enquanto a pacificação é um dos resultados que ela procura alcançar.

Se o processo termina apenas com a imposição de uma decisão, poderá produzir obediência; se termina com uma solução juridicamente legítima, poderá produzir segurança; se, além disso, reconhece os direitos, respeita a dignidade humana e oferece razões justas para a decisão, poderá contribuir verdadeiramente para a paz social.

Assim, minha proposição não é abandonar a justiça em favor da pacificação. É reconhecer que, na experiência concreta das instituições, a necessidade de encerrar conflitos frequentemente se apresenta antes que todas as dúvidas sobre a justiça do resultado possam ser superadas.

O processo precisa terminar, mas não deve perder de vista a justiça que lhe confere sentido.

Talvez a verdadeira evolução da humanidade não consista em aperfeiçoar indefinidamente os mecanismos de julgamento, mas em construir relações sociais nas quais a responsabilidade, o diálogo e o reconhecimento recíproco tornem menos necessária a intervenção coercitiva do Estado.

Onde houver entendimento, haverá menos litígios. Onde houver responsabilidade, haverá menos necessidade de imposição. E onde houver respeito efetivo à dignidade humana, a pacificação social poderá deixar de ser apenas o encerramento formal de uma disputa para se tornar uma experiência concreta de justiça.

Milton Luiz Gazaniga de Oliveira

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 5º, incisos XXXVII, LIV e LV.

CARNELUTTI, Francesco. Como se faz um processo. Obra de referência para a reflexão sobre a dimensão humana e jurídica da atividade processual.

KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Martins Claret, 2006.

SOIBELMAN, Leib. Enciclopédia do Advogado. 3. ed. Rio de Janeiro, 1981, 2ª tiragem.